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06 fevereiro 2026

Último capítulo futebolístico: Florença

Houve uma fase em que a revista “Mundial” mudou de semblante: deixou de se seguir a mesma herança visual da “Volta ao Mundo”, ficou mais reduzida em termos de formato e as páginas interiores eram agrafadas e sem lombada. Pelos vistos, a redução de custos era premente e, na realidade, a revista acabaria por apenas sobreviver durante poucos anos. As reportagens e entrevistas eram feitas intramuros, com incidência de capas focalizadas nos chamados três “grandes”, para não ferir susceptibilidades.

Mesmo assim, ainda se realizaram algumas reportagens fora de portas, tanto mais que era cada vez maior o número de jogadores portugueses que actuavam em ligas estrangeiras, embora não tantos como nos dias de hoje. Como é óbvio, não podíamos chegar a todos, limitando-nos a centrarmos nos mais mediáticos: após Figo em Barcelona, Helder na Corunha, Cadete em Glasgow e Vigo, Paulo Sousa em Dortmund e Futre em Madrid, chegou a vez de Rui Costa, em Florença.

A reportagem foi aprazada durante um dos estágios da Selecção Nacional e ficou tudo acertado com o jogador: dia da chegada, tempo despendido na cidade e calendário de treinos. Por conta da revista ficaram o hotel e o aluguer de um automóvel. Mais uma vez, fui acompanhado pelo Nuno Correia e, mal chegados a Florença, contactámos o jogador a dizer que já lá estávamos.

- O treino, amanhã, é às dez horas, mas cheguem um bocadinho mais cedo. Encontramo-nos num cafezinho mesmo ao lado do estádio, pode ser?

Como tínhamos chegado na véspera, tivemos tempo para dar um giro por Florença. Foi a minha primeira das muitas vezes que lá fui e, desde logo, rendi-me incondicionalmente à cidade. O primeiro ponto visitado foi a Piazza della Signoria, na qual fiquei maravilhado diante da Catedral de Santa Maria del Fiore e do Campanário, onde Brunelleschi e Giotto, respectivamente, derramaram a sua genialidade. Impressionaram-me a grandiosidade, a elegância, as cores, os mármores deste autêntico museu ao ar-livre.

Com a noite a chegar, ainda demos uma saltada a Pisa, a cidade que tem na sua torre inclinada um dos maires ex-líbris da Toscana e encetámos o regresso a Florença. Como escrevi anteriormente, foram mutas, e não demasiadas, as vezes em que estive na capital toscana, mas a cidade e a província ficam para daqui a mais uns tantos posts, numa reportagem bastante diferente desta.

Manhã cedo dirigimo-nos para o “Artemio Franchi” tentando perscrutar o tal café que Rui Costa tinha indicado. Entrámos naquele espaço repleto de cachecóis e galhardetes da Fiorentina, dirigimo-nos ao balcão para pedir um cappucinno e reparámos que as mesas e cadeiras estavam ocupadas por pessoas de mais idade, umas a jogar às cartas, outras apenas a conversar. De Rui Costa, nem sinal.

Só que, num breve espaço de tempo, começámos a ouvir um burburinho seguido de palavras entusiásticas. Rui Costa cumprimentou-os, olhou em redor e sentou-se à nossa mesa.

- Então, fizeram boa viagem? Sim? Ainda bem.

- Sabem, antes dos treinos, faço sempre questão em passar por aqui. São velhos adeptos da Fiorentina e este é o local de encontro, cai-lhes muito bem quando um jogador aqui vem.

Despedimo-nos com um “até já”, porque tínhamos combinado encontrarmo-nos depois do treino.

- Então, vamos almoçar?

Estádio Artemio Franchi
Acompanhámo-lo até um restaurante que aparentemente, era um dos poisos gastronómicos preferidos de todos os jogadores e, findo o repasto, rumámos até sua casa, postada na colina de Fiesole, que foi a génese etrusca da cidade e que tinha uma vista privilegiada para o casario e para os pináculos dos monumentos. A casa era composta por uma vivenda de dois andares, com um jardim relvado onde estava desenhado um pequeno campo de futebol, com balizas e tudo, mas joia da coroa era o “Lamborghini” vermelho estacionado à entrada

- Era o carro que sempre quis, andei que tempos atrás dele!

Quando entrámos, Rui Costa disse-nos que podíamos ficar pela sala inferior e, quando olhámos em redor para apreciar o generoso espaço, saiu uma confidência:

- Esta era a casa do Roberto Baggio, mas, quando ele saiu, ficou disponível e fiquei logo interessado. Gosto mesmo muito de estar aqui!

A entrevista correu muito bem, com boa-disposição e conversas transversais para além de futebol. Falou-nos sobre a cidade que o encantou logo à primeira vista, sobre a sua adaptação ao campeonato e à língua italiana e a algo que estranhou pouco depois de chegar ao clube florentino:

- Vocês não vão acreditar, mas, nos primeiros jogos, quando se anunciava a constituição da equipa, eu era assobiado.

Ficámos incrédulos.

- Mas porquê?

- Porque os adeptos pensavam que o meu nome era Emanuel, por isso, quando gritavam pelo meu nome, eu não reagia, porque pensava que não era para mim. Ora, para os tifosi, isso caiu-lhes mal. Tive de explicar que o meu nome é Rui Manuel Costa, e não Emanuele. A partir daí, deixaram de me assobiar!

Com a entrevista a caminhar para o fim, reparei num livro pequenino que estava numa estante e, diante da minha curiosidade, ele disse-me:

- Se quiseres, podes ficar com ele, é uma oferta minha.

Agradeci, mas acrescentei:

- Já agora, gostava que o autografasses.

Sorriu e escreveu a sua rúbrica, com dedicatória, naquele livrinho sobre a história da Fiorentina.

Já à saída, o Nuno Correia sugeriu-lhe algo de que me já tinha falado:

- Rui, achas que é possível eu tirar uma foto contigo e com o Batistuta? Ia ficar bem, tu e ele.

- Sabes, ele é um pouco reservado, mas eu posso falar com ele. Venham amanhã ao final do treino e depois logo se vê.

Expliquemos para os menos entendidos em futebol: Gabriel Batistuta, argentino, era o “craque” da Fiorentina, um goleador exímio que era um verdadeiro ídolo para os tifosi da “Fiore”.

Com bastante expectativa, aguardámos na sala de imprensa que Rui Costa aparecesse com novidade, e disse assim que nos viu:

- Não foi fácil, mas ele concordou. Tive de fazer um choradinho a dizer que vocês eram portugueses e que era só um foto, que não a custar nada. Aguardem por nós, vamos só equipar-nos e já vimos.

O Nuno tratou de arranjar um espaço na sala de imprensa, colocou as luzes e os reflectores e conferiu a máquina fotográfica ml e uma vezes. Assim que os dois chegaram, todos os jornalistas italianos que estavam presentes correram na direcção dos jogadores com as câmaras em riste.

Rui Costa elevou a voz e, com ar irado, disse-lhes que aquilo era só exclusivo para portugueses, perante a resignação dos outros jornalistas.


Pelo sim, pelo não, correu-se um pano que ocultava aquele canto da sala. A sessão foi rápida, mas bem conseguida e, no fim, tive o atrevimento de sugerir uma entrevista ao “astro” argentino. Notei-lhe uma hesitação, mas, devo ter feito um ar tão suplicante, que ele disse-me que, apesar de não ser a melhor altura, falaríamos mais tarde – embora sem qualquer data marcada.

Obviamente, a reportagem teria de incluir um jogo de futebol, mas o calendário não ajudou. Pensávamos fazer um jogo no “Artemio Franchi”, mas, no tempo em que estivemos em Florença, o único desafio agendado seria fora, mais precisamente em Bérgamo, diante da Atalanta.

E assim foi, numa viagem que, já não muito distanciada da cidade lombarda, comecei a ver os cumes majestosos dos Alpes ainda cobertos de neve. Uma bela visão, mas que não teve direito a uma paragem porque o tempo urgia.

Foi o primeiro jogo que vi do campeonato transalpino, por isso tudo para mim era novidade – os fervorosos tifosi locais, a tosca bancada de imprensa do antigo “Atleti Azzurri d’Italia”, os adeptos da Fiorentina enjaulados numa caixa vedada, os cânticos incessantes.


Bérgamo - Atalanta-Fiorentina,
com os Alpes como pano de fundo
O jogo foi de nervos. A Atalanta precisava de uma vitória que lhes garantia a certeza de se manter na série A, a Fiorentina tinha o mesmo objectivo, de forma a garantir a presença nas competições europeias. Mas no final foram os bergamascos que fizeram a festa, com um concludente 2-0.

Após o término da partida, abeirámo-nos da cabina forasteira e esperámos pela saída dos jogadores. Era uma confusão enorme, com dezenas de adeptos a gritar e a solicitar autógrafos. Mas eu tinha mesmo chegar à fala com Batistuta para combinar a apalavrada entrevista. Furei, fui empurrado, empurrei, até dar por mim dante dele, mas rapidamente fui recambiado dali para fora. Voltei para a capital toscana resignado, teria sido muito fixe sacar-lhe uma entrevista.

Nessa mesma noite, fomos jantar a um restaurante que tínhamos ouvido falar bastante bem. Estávamos à espera de sermos atendidos, quando olhei para o lado e vi Batistuta, a mulher e as filhas à mesa. Excelente!

Abeirei-me em pezinhos de lã e, tentando esgrimir o meu melhor castelhano, falei-lhe da entrevista supostamente combinada.

- Gabriel, peço desculpa, mas posso interromper?

- Escuta, eu estou aqui a jantar com a minha família e não quero ser incomodado.

Pedi desculpa e saí dali cabisbaixo, mas ele chamou-me inesperadamente:

- Pronto, eu sei que são portugueses, o Rui falou-me bem de vocês e posso fazer o seguinte: dou-te o meu número de telemóvel, não o divulgues a ninguém e depois combinamos.

- A questão é que vamos embora amanhã…

- Então liga-me de Portugal.

Fui à minha mesa, puxei de uma caneta e apontei num guardanapo de papel o precioso contacto. Desfiz-me em agradecimentos e voltei para a minha mesa de bem com o mundo.  Mais tarde, já em Lisboa, digitei o número do “astro” argentino, mas não estava escrito nos astros que ele atendesse – foi o mais perto que estive de entrevistar Batistuta, o que não é lá grande coisa.

No último dia assistimos ao derradeiro treino. Na sala de imprensa, solicitámos Rui Costa ao assessor de imprensa para nos despedirmos. Quando ele chegou, falámos brevemente, agradecemos a sua simpatia e disponibilidade e ele desejou-nos boa viagem. Num último gesto. virou-se para mim com um sorriso:

- Tenho outro livro para te oferecer, é este

Olhei para a capa com o título “Il mio 10 per Firenze”, uma biografia com um jogo de palavras: 10 era o número de Rui Costa, que atribuía a nota 10 à cidade de Florença.

Na realidade, também eu dou o meu 10 a Florença, mesmo que nunca tenha utilizado esse número numa camisola.