Estava há pouco tempo na “Volta ao Mundo” e, nesse primeiro mês e meio, limitei-me a editar textos de colaboradores, com constantes idas à sala da paginação para cortar ou acrescentar palavras de forma a que se ajustassem às páginas. Nessa altura, e como era o elemento mais recente da redacção, sempre imaginei que o meu primeiro trabalho seria intramuros, uma vez que a revista contemplava uma secção dedicada a Portugal. Algo como “As maravilhosas rotundas de Viseu” ou os estaleiros da Lisnave. Mas não, afinal tocou-me o Mosteiro da Batalha – menos mal.
Certo
dia, acabado de chegar à redacção, o director André Pipa virou-se para mim:- Sabes, há aí um convite…
Fiquei suspenso do que viria a seguir.
- Então é assim: nenhum de nós pode ir, pontanto quero saber se queres…
Não fazia ideia qual o teor do convite, mas a resposta saiu sem pensar:
-Quero!
-Então, pronto, está decidido.
-Já agora, qual é a reportagem?
- Já alguma vez foste a Brasil?
- Não…
- Então vais agora!
Nem queria acreditar, senti-me nas nuvens e num aparvalhado estado de euforia – para primeira viagem, era bom demais!
O convite era da “Sittis”, uma empresa de eventos que pretendia inaugurar uma nova rota turística inovadora, e, fiquei também a saber que ia ter como companheiro de viagem o Luís Filipe Catarino.
No terminal do aeroporto, todo eu irradiava alegria e entusiasmo, e percebi, ao fazer o chek-in, que não éramos só nós a embarcar, pois, além do organizador da empresa, havia mais oito elementos. Ao princípio, pensei que eram jornalistas, mas só depois fiquei a saber que eram agentes de viagem. Ao longo da travessia sobre o Atlântico, passei o tempo todo a conversar com o Luís, onde descobrimos gostos comuns e uma empatia imediata – mal sabíamos que seria a primeira das muitas viagens que faríamos juntos daí em diante! E foi também em pleno voo que nos entregaram o programa da viagem, que consistia num trajecto de buggy pelo litoral do Nordeste brasileiro ao longo de cinco dias e, ainda, uma extensão de três dias em Salvador da Bahia.
Assim que aterrámos, senti-me agraciado pelo calorzinho húmido no trajecto a pé até ao terminal - era Novembro e Portugal estava a tiritar de frio. Ainda no aeroporto, foi-nos apresentada a Rosana, a guia que nos acompanharia nos primeiros dias. No trajecto até ao hotel, dentro de um autocarro, a jovem brasileira desafiou-nos:
- Bem, para que a viagem seja divertida, proponho que cada um de vocês execute uma dança individual ao gosto de cada um.
Depois de termos deixado as malas no hotel “Caesar Park” voltámos para o autocarro para termos um vislumbre de Fortaleza: a Avenida Abolição, a Catedral, o Forte, o Centro Cultural, o Mercado do Peixe, a Praça dos Stressados e algumas praias enxameadas de gente. Sinceramente, não morri de amores por Fortaleza e, no íntimo, senti ansiedade para que chegasse o dia seguinte, onde iria começar a aventura.
Acordei fresquinho da silva e fui tomar o pequeno-almoço na varanda, voltando a sentir aquele morninho matinal.
| Fortaleza - Foi aqui que tudo começou |
- Qual de vocês é o Rolão?
Dei um passo em frente.
- Com você eu não quero ir, não!
Fiquei espantado, mas ele tratou de esclarecer:
- Sabe o que é rola em brasileiro?
E eu sabia, por caso sabia o significado daquela palavra.
- Portanto, não sei se é seguro para mim ter você dentro do bugue, por causa do excesso de peso!
Riu-se alarvemente e eu limitei-me a dar um sorriso amarelo.
De
Fortaleza a Canoa Quebrada
Saltámos
para dentro do carrinho, fizemos um desfile pelas ruas asfaltadas da cidade e
em breve, chegámos à praia de Iracema, onde se ia iniciar uma viagem de 700KM distribuídos
por cinco dias, sempre pelas praias do litoral nordestino, parando para almoçar
em botecos à beira-mar e a pernoitar junto aos areais. No primeiro dia, foi um
desfilar de praias encantatórias: Prainha, Morro Branco e das Fontes, onde
parámos para almoçar e nos despedirmos da Rosana. Depois, foi só seguir para o
término da primeira etapa em Canoa Quebrada, cujas ruas são de areia
avermelhada e com a artéria principal a dar pelo nome de Broadway.
Acordei
esfaimado na Pousada da Falésia e dirigi-me para o café da manhã, perdão, para
o pequeno-almoço servido na esplanada. Olhei para cima da mesa e vi diversos
jarros de vidro com o nome dos sumos, alguns dos quais que nunca tinha ouvido
falar, além dos triviais de laranja, morango, ananás e manga – acerola, açaí,
beribá, jenipapo, tucumã, uxi, guabiroba, graviola, abacate…
Canoa
Quebrada-Mossoró
Depois
foi voltar para o buggy e continuar a jornada do dia: praias de
Fontainha, da Ponta Grossa, Redonda, onde parámos para almoçar. Depois dos
camarões e dos lavagantes, os bugueiros desafiaram-nos para um jogo de futebol
na areia, eles contra os passageiros. O Daniel ufanava-se que era bom de bola e
eu, por uma questão de honra lusitana, fiz questão em que ele não passasse por
mim.
| Praia Redonda |
- Cara, isso está feio, vou ter de amputar!”
Olhei-o a rir, mas fiquei suspenso quando o vi com um facalhão em riste. Num pulo, saltei da mesa, fugi para a praia e ainda a tempo de ganhar o jogo, perante os protestos do Daniel a dizer “batota, batota!”.
Seguimos caminho, sempre à beira-mar: Mutantes, Mutamba, Manibú (fim do Ceará, início do Rio Grande do Norte), Tibau do Norte, Grossos e Mossoró, onde ficámos instalados no hotel “Thermas”, que, como o nome indica, tem piscinas naturais em socalcos com temperaturas que variam entre 56ºC e os 26º.
| São Miguel do Gostoso |
| Travessia de balsa |
Daniel interpelou-nos:
-
Querem com muita ou pouca emoção?Demos a resposta evidente.
- Então segurem-se bem e fiquem de pé.
Foi alucinante. O buggy subiu e desceu as dunas a uma velocidade vertiginosa, quase caiu a pique em manobras arriscadas… mas divertidas – só experimentando, para se ter a noção concreta. Terminado esta espécie de “Paris-Dakar” na areia, parámos finalmente, com os outros buggys dos nossos companheiros alinhados lado-a-lado no cume de uma das dunas –
um pouco ao longe, piscavam as luzes de Natal.
Para chegar à cidade, ainda teve de se fazer a travessia do rio Potegi num ferry, mas sabia-se que esta última noite seria dedicada ao seu usufruto. Na componente cultural, visitámos o Forte dos Reis Magos e o teatro Alberto Maranhão, e parte da noite foi passada na discoteca Casquinha de Siri.
Mas este périplo pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte não correspondeu à totalidade da viagem. Seguiu-se outro estado e outra cidade.
| Largo do Pelourinho |
Sem hipóteses de escapatória, comprei uma carrada delas – mais tarde foram úteis, pois distribuí aquelas fitinhas coloridas pelos meus amigos como prendas de aniversário. A noite foi passada num bar na área em redor do Pelourinho, onde aprendi a fazer caipirinha e ser apresentado a um adivinho, que insistiu em prever o meu futuro. Concentrou-se, chocalhou umas padras coloridas, acendeu incensos e aspirou o fumo, murmurou umas palavras indecifráveis, fechou os olhos e abriu-os logo de seguida para dizer o que o futuro me reservava – passados todos estes anos, posso garantir que, senão falhou em tudo, falhou em quase tudo.
A
última noite passada no belíssimo “Hotel Catharina Paraguaçu”, com a certeza de
que o dia seguinte seria o da despedida. Esse foi feito ao sabor de cada um, eu
e o Luís demos mais uns giros até que ele me lançou um repto:
- Aracajé?
- Não pá, acarajé!
-Seja, mas o que raio é isso?
- Epá, é uma coisa para comer.
- Certo, mas o que é?
- Confias em mim?
Fiquei desconfiado, mas acedi.
Coloquei
uns bolinhos no molho do recipiente, levei-os à boca… e senti-me entrar em
órbitra, soltando labaredas enquanto praguejava. Nunca mais voltarei a confiar no
Catarino.
Um
mês depois, em casa de um dos companheiros de viagem, assistimos a uma sessão
de slides que o Catarino tinha tirado ao longo dos dias – e foi
divertido recordar episódios e paisagens da aventura pelo nordeste brasileiro.
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