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18 fevereiro 2026

A primeira experiência brasileira - Nordeste

Estava há pouco tempo na “Volta ao Mundo” e, nesse primeiro mês e meio, limitei-me a editar textos de colaboradores, com constantes idas à sala da paginação para cortar ou acrescentar palavras de forma a que se ajustassem às páginas. Nessa altura, e como era o elemento mais recente da redacção, sempre imaginei que o meu primeiro trabalho seria intramuros, uma vez que a revista contemplava uma secção dedicada a Portugal. Algo como “As maravilhosas rotundas de Viseu” ou os estaleiros da Lisnave. Mas não, afinal tocou-me o Mosteiro da Batalha – menos mal.
Certo dia, acabado de chegar à redacção, o director André Pipa virou-se para mim:
- Sabes, há aí um convite
Fiquei suspenso do que viria a seguir.
- Então é assim: nenhum de nós pode ir, pontanto quero saber se queres…
Não fazia ideia qual o teor do convite, mas a resposta saiu sem pensar:
-Quero!
-Então, pronto, está decidido.
-Já agora, qual é a reportagem?
- Já alguma vez foste a Brasil?
- Não…
- Então vais agora!
Nem queria acreditar, senti-me nas nuvens e num aparvalhado estado de euforia – para primeira viagem, era bom demais!


O convite era da “Sittis”, uma empresa de eventos que pretendia inaugurar uma nova rota turística inovadora, e, fiquei também a saber que ia ter como companheiro de viagem o Luís Filipe Catarino.
No terminal do aeroporto, todo eu irradiava alegria e entusiasmo, e percebi, ao fazer o chek-in, que não éramos só nós a embarcar, pois, além do organizador da empresa, havia mais oito elementos. Ao princípio, pensei que eram jornalistas, mas só depois fiquei a saber que eram agentes de viagem. Ao longo da travessia sobre o Atlântico, passei o tempo todo a conversar com o Luís, onde descobrimos gostos comuns e uma empatia imediata – mal sabíamos que seria a primeira das muitas viagens que faríamos juntos daí em diante! E foi também em pleno voo que nos entregaram o programa da viagem, que consistia num trajecto de buggy pelo litoral do Nordeste brasileiro ao longo de cinco dias e, ainda, uma extensão de três dias em Salvador da Bahia.
Assim que aterrámos, senti-me agraciado pelo calorzinho húmido no trajecto a pé até ao terminal - era Novembro e Portugal estava a tiritar de frio. Ainda no aeroporto, foi-nos apresentada a Rosana, a guia que nos acompanharia nos primeiros dias. No trajecto até ao hotel, dentro de um autocarro, a jovem brasileira desafiou-nos:
- Bem, para que a viagem seja divertida, proponho que cada um de vocês execute uma dança individual ao gosto de cada um.
Ficámos indecisos, mas, quando o primeiro arriscou, todos os outros o secundaram à vez ao longo do corredor central. Rimo-nos bastante, mas os outros ainda se riram mais quando viram a dança grotesca quando chegou a minha vez. Por uma questão de decoro, prefiro não relatar aquilo que fiz e nem os passos que executei…
Depois de termos deixado as malas no hotel “Caesar Park” voltámos para o autocarro para termos um vislumbre de Fortaleza: a Avenida Abolição, a Catedral, o Forte, o Centro Cultural, o Mercado do Peixe, a Praça dos Stressados e algumas praias enxameadas de gente. Sinceramente, não morri de amores por Fortaleza e, no íntimo, senti ansiedade para que chegasse o dia seguinte, onde iria começar a aventura.
Acordei fresquinho da silva e fui tomar o pequeno-almoço na varanda, voltando a sentir aquele morninho matinal. 


Fortaleza - Foi  aqui que tudo começou
Chegado o grande dia, fomos apresentados aos bugueiros, os condutores dos buggys, e a nós tocou-nos o Daniel, que nos olhou com ar divertido e com uma pergunta:
- Qual de vocês é o Rolão?
Dei um passo em frente.
- Com você eu não quero ir, não!
Fiquei espantado, mas ele tratou de esclarecer:
- Sabe o que é rola em brasileiro?
E eu sabia, por caso sabia o significado daquela palavra.
- Portanto, não sei se é seguro para mim ter você dentro do bugue, por causa do excesso de peso!
Riu-se alarvemente e eu limitei-me a dar um sorriso amarelo.
 

De Fortaleza a Canoa Quebrada
 


Saltámos para dentro do carrinho, fizemos um desfile pelas ruas asfaltadas da cidade e em breve, chegámos à praia de Iracema, onde se ia iniciar uma viagem de 700KM distribuídos por cinco dias, sempre pelas praias do litoral nordestino, parando para almoçar em botecos à beira-mar e a pernoitar junto aos areais. No primeiro dia, foi um desfilar de praias encantatórias: Prainha, Morro Branco e das Fontes, onde parámos para almoçar e nos despedirmos da Rosana. Depois, foi só seguir para o término da primeira etapa em Canoa Quebrada, cujas ruas são de areia avermelhada e com a artéria principal a dar pelo nome de Broadway.

Canoa Quebrada
Acordei esfaimado na Pousada da Falésia e dirigi-me para o café da manhã, perdão, para o pequeno-almoço servido na esplanada. Olhei para cima da mesa e vi diversos jarros de vidro com o nome dos sumos, alguns dos quais que nunca tinha ouvido falar, além dos triviais de laranja, morango, ananás e manga – acerola, açaí, beribá, jenipapo, tucumã, uxi, guabiroba, graviola, abacate…
 
Canoa Quebrada-Mossoró
 
Depois foi voltar para o buggy e continuar a jornada do dia: praias de Fontainha, da Ponta Grossa, Redonda, onde parámos para almoçar. Depois dos camarões e dos lavagantes, os bugueiros desafiaram-nos para um jogo de futebol na areia, eles contra os passageiros. O Daniel ufanava-se que era bom de bola e eu, por uma questão de honra lusitana, fiz questão em que ele não passasse por mim. 


Praia Redonda
A determinada altura, fiz um “carrinho”, desarmei-o, e percebi que, nesse movimento intrépido, tinha raspado com o joelho na areia e estava a sangrar. O jogo foi interrompido e, quando dei por mim, estava a ser transportado aos ombros por outro bugueiro que me deitou em cima de uma mesa, olhou a ferida e foi peremptório:
- Cara, isso está feio, vou ter de amputar!
Olhei-o a rir, mas fiquei suspenso quando o vi com um facalhão em riste. Num pulo, saltei da mesa, fugi para a praia e ainda a tempo de ganhar o jogo, perante os protestos do Daniel a dizer “batota, batota!”.
Seguimos caminho, sempre à beira-mar: Mutantes, Mutamba, Manibú (fim do Ceará, início do Rio Grande do Norte), Tibau do Norte, Grossos e Mossoró, onde ficámos instalados no hotel “Thermas”, que, como o nome indica, tem piscinas naturais em socalcos com temperaturas que variam entre 5C e os 26º.
 
Mossoró-São Miguel do Gostoso
 
O terceiro dia contemplou mais praias, praias e praias. Certo que todas engodavam a vista, mas, a determinada altura, eram mais do mesmo, mas em bom. E foi assim que fomos passando por Baixa Grande, Redondas, Porto de Mangue, Ponta do Mel, Pedra Branca, Rosado – que teve uma pequena paragem para um mergulho, 5 minutos ao sol e s sensação de liberdade total – e, à passagem por Macau, uma área de salinas, fomos açoitados pela espuma de sal arrastada pelo vento, revestindo a estrada – seguindo para Galos, Caiçara e Raly. 


São Miguel do Gostoso
Esta última foi a que mais dificuldades apresentou: era noite feita, estávamos atrasados e, com a subida da maré, a praia limitava-se a uma estreita língua de areia em que a água batia nas rodas da direita e as rodas esquerdas rasgavam os sopés das dunas. No meio daquela correria quase alucinante, o Luís não parava de contar anedotas, talvez para descontrair. Mas ainda havia um troço por fazer, passando pela praia do Marco e o seu padrão de descobrimentos, até ao destino do dia, São Miguel do Gostoso. Jantámos e pernoitámos na pousada dos Cruzeiros, desgastados pelos 300Km cumpridos desde Mossoró.
 
São Miguel do Gostoso-Natal
 
O último dia, um pouco nostálgico até, foi mais curto, pois contemplou a praia e o farol de Touros, a travessia de balsa do rio Punau e o Cabo de S. Roque, que marca a menor distância entre a América do Sul e África. A 50km de Natal, as paisagens cambiaram e começámos a ver cada vez mais bugueiros, e as razões eram mais que óbvias: estávamos em Jenipabu, que é domínio das dunas de areia debruçadas para o mar.

Travessia de balsa
Daniel interpelou-nos:
- Querem com muita ou pouca emoção?
Demos a resposta evidente.
 - Então segurem-se bem e fiquem de pé.
Foi alucinante. O buggy subiu e desceu as dunas a uma velocidade vertiginosa, quase caiu a pique em manobras arriscadas…  mas divertidas – só experimentando, para se ter a noção concreta. Terminado esta espécie de “Paris-Dakar” na areia, parámos finalmente, com os outros buggys dos nossos companheiros alinhados lado-a-lado no cume de uma das dunas –
um pouco ao longe, piscavam as luzes de Natal.

Jenipabu - Dunas e malabarismos




Para chegar à cidade, ainda teve de se fazer a travessia do rio Potegi num ferry, mas sabia-se que esta última noite seria dedicada ao seu usufruto. Na componente cultural, visitámos o Forte dos Reis Magos e o teatro Alberto Maranhão, e parte da noite foi passada na discoteca Casquinha de Siri.
Mas este périplo pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte não correspondeu à totalidade da viagem. Seguiu-se outro estado e outra cidade.


 


Salvador da Bahia
 
A última etapa não implicou buggys, bugueiros e praias. Apanhámos um voo de 3h30 que nos levou até Salvador, onde, como primeiro contacto, fomos ao mercado Modelo, contemplámos a Baía de Todos os Santos e visitámos o centro histórico da grande urbe: a paleta de cores que é o Largo do Pelourinho, o Forte de Santo António e, sendo uma cidade com 184 igrejas, obviamente não tivemos tempo para todas, pelo que nos dedicámos exclusivamente à de São Francisco de Assis, repleta de talha dourada artisticamente burilada.

Largo do Pelourinho
Entre os grandes ex-líbris, não podíamos passar ao lado, mesmo que não quiséssemos, de algo pouco monumental. Fiquei lívido quando vi uma baiana opulenta, vestida com aqueles vestidos garridos e coloridos atracar-se a mim que nem uma lapa, exigindo que nos tirassem uma foto em pose. O Luís fez-lhe o favor e, antes que ela começasse a pedir dinheiro, escapulimo-nos dali para fora, mas fomos travados uns metros adiante: num ápice, ficámos rodeados por dezenas de putos que não desgrudavam a impingir fitinhas do Senhor do Bonfim. 


Sem hipóteses de escapatória, comprei uma carrada delas – mais tarde foram úteis, pois distribuí aquelas fitinhas coloridas pelos meus amigos como prendas de aniversário. A noite foi passada num bar na área em redor do Pelourinho, onde aprendi a fazer caipirinha e ser apresentado a um adivinho, que insistiu em prever o meu futuro. Concentrou-se, chocalhou umas padras coloridas, acendeu incensos e aspirou o fumo, murmurou umas palavras indecifráveis, fechou os olhos e abriu-os logo de seguida para dizer o que o futuro me reservava – passados todos estes anos, posso garantir que, senão falhou em tudo, falhou em quase tudo.
A última noite passada no belíssimo “Hotel Catharina Paraguaçu”, com a certeza de que o dia seguinte seria o da despedida. Esse foi feito ao sabor de cada um, eu e o Luís demos mais uns giros até que ele me lançou um repto:


 - Queres provar acarajé?
- Aracajé?
- Não pá, acarajé!
-Seja, mas o que raio é isso?
- Epá, é uma coisa para comer.
- Certo, mas o que é?
- Confias em mim?
Fiquei desconfiado, mas acedi.
Coloquei uns bolinhos no molho do recipiente, levei-os à boca… e senti-me entrar em órbitra, soltando labaredas enquanto praguejava. Nunca mais voltarei a confiar no Catarino.

Um mês depois, em casa de um dos companheiros de viagem, assistimos a uma sessão de slides que o Catarino tinha tirado ao longo dos dias – e foi divertido recordar episódios e paisagens da aventura pelo nordeste brasileiro.


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