Mais uma vez, fui acompanhado pelo Luís Catarino, e o curto voo, que teve escala em Madrid, decorreu tranquilamente até se começar a sobrevoar a ilha, e, ao olhar pela escotilha, fiquei agradavelmente surpreendido com o que estava a ver “lá em baixo”: um mar azul-turquesa que rodeava todo o litoral – não fosse saber para onde ia, poderia ficar sugestionado de que o destino era algures nas Caraíbas, ou mesmo, ainda que improvável pelo tempo de voo, num qualquer atol do Pacífico.
| Maó e o seu porto |
- Mas o menos… - foi a resposta que recebi.
Ora mais ou menos não é nada e, mesmo titubeante, decidi-me pelo cap roig.
Só depois deslindei a questão: o cap roig é meio peixe, meio crustáceo, uma espécie de mistura entre um carapau frito e um caranguejo e, sinceramente, não tirei grande proveito, tal a quantidade de espinhos e casca grossa – valeu pela cerveja artesanal “Sant Climent”, nada de “Estrella Galicia”, “San Miguel”, “Mahou” e afins.
A partir aqui, iniciou-se a exploração da ilha. O foco da reportagem apontava para as calas, mas decidimos remetê-las para mais tarde. Seguindo o conselho da guia, começámos por visitar “Binibeca Vell”, o exemplo perfeito de como era uma comunidade piscatória de outros tempos, totalmente caiada de branco e ruas estreitas quase labirínticas e que, na altura, era possível alugar algumas casas com propósitos turísticos.
| Binibeca Vell |
- Sabem, daqui, em dias de boa visibilidade, conseguem-se observar os contornos de Maiorca.
Não era, infelizmente, o caso. Mas ainda nos deu outra surpreendente informação:
- Muitos dos visitantes são maiorquinos, gostam de vir a Menorca para recordar como era Maiorca antes do fluxo turístico.
Pensámos logo que, se a reportagem tivesse o impacto esperado, Menorca poderia, nos anos seguintes, tomar o mesmo rumo da sua irmã maior.
| S'albufera des Grau |
Mais uma vez, a guia foi boa conselheira:
- A especialidade de Fornells é a langosta, estão interessados?
Ficámos a salivar com a sugestão.
Ela entrou no restaurante e, pouco depois, chegou junto a nós.
- Bom, isto vai ter de demorar um pouco. O restaurante está cheio e a preparação da vossa refeição leva um certo tempo… Preferem ir almoçar a outro lado?
Voltou a entrar no restaurante e voltou a sair.
- Disseram-me para voltarmos dentro de hora e meia e que então estará tudo pronto para nós!
Para matar o tempo, fomos passear pelo caminho marítimo em redor da marina, pela baía observando os barquinhos à vela e ainda a uma pequena capela. O sol inundava todo o cenário, era bonito sim senhor, mas a fome apertava e de que maneira…
Hora e meia depois, entrámos esfaimados no restaurante “S’ancora” – finalmente!
- É melhor pôr isto…
Surpreendido, vi-o colocar-me um avental atado pela cintura e pendurado no pescoço – e senti-me ridículo. Mas tal sensação rapidamente se desvaneceu, uma vez que a bata, imaculadamente branca, impediu que ficasse a escorrer molho para a roupa, com a ânsia de arrancar tenazes à martelada. A caldereta estava suculenta e a barriga, de tão cheia, impelia a uma sesta retemperadora. Mas não, havia que retomar o caminho de volta para Maó.
| Fornells |
Deixámos Maó e fomos para Ciutadella, a segunda maior cidade. Se a capital vinga por um certo cosmopolitismo, com bancos e serviços, Ciutadella distingue-se pelo charme e elegância. Mas já lá vamos.
| Centro histórico de Ciutadella |
Ciutadella, tal como Maó, possui no porto o seu chamariz, mas, pelo menos pareceu-nos, mais aconchegante. A cidade, que já foi capital, possuiu um centro histórico cativante, nomeadamente na zona de “S’es Voltes”, além de praças e ruelas que demonstram o seu passado umbilicalmente ligado ao mar.
Mas Ciutadella e sua área envolvente tinha muito mais para oferecer, com as calas no topo das prioridades – e que praias! Turqueta, Macarella, Macallereta, Mitjana… Pequenos nichos de areia branca entre rochedos banhados por águas cristalinas e com todas as tonalidades que os azuis podem ter.
| Cala Turqueta |
| Cala Es Talaier |
Ora, pensou o Luís, aquilo bem que poderia ser uma hipótese de capa. Mas faltava algo: um elemento feminino, que, por acaso, até estava ali à mão de semear. O Luís explicou-lhes o que pretendia, mas só uma mostrou disponibilidade – a roliça. Neste entretém, empoleirei-me em cima de uma rocha para apreciar devidamente aquela improvisada sessão fotográfica. O fotógrafo posicionou-se de máquina em riste, e a italiana cheiinha atirou-se de cabeça â água e, quando voltou à tona, soltou-se a parte de cima do biquíni, deixando-a de seios à mostra. O Luís começou a rir-se e ela rapidamente puxou para cima a parte do biquíni que estava em falta. A cena repetiu-se várias vezes, e sempre com o mesmo resultado, até que a miúda desistiu. Mas como ainda havia a outra italiana, o Luís sugeriu-lhe que fosse ela a seguir. Dito e feito: mergulhou, veio à tona intacta e começou a boiar. Meia dúzia de fotos depois, deu-se por encerrada a sessão. Uma destas fotos acabou, mesmo, por ser a imagem de capa da edição! Voltámos ao barco e, no regresso ao porto, a gordinha não parava de rir – e nós também.
Uma vez que já tínhamos estado in-loco nas calas, o Catarino teve a ideia de fotografá-las de cima e, como sabíamos que havia um aeródromo em Sant Lluis, fomos até lá inquirir a possibilidade. Falámos com um piloto, negociámos o preço, saltámos para dentro da avioneta e, minutos depois, estávamos a sobrevoar aqueles paraísos aquáticos. Para mim, foi um regalo, para o Catarino, nem por isso: fotografou de todas as formas possíveis, experimentou diversos ângulos, mas, como os vidros da avioneta eram foscos e estavam cheios de riscos, não se aproveitou nem uma. Resumindo, lá teria de ser a gorda a mais forte hipótese de capa…
| Cova d'Enxoroi |
Continuámos em direcção a Ciutadella quando vimos uma indicação à beira da estrada: Cova d’Enxoroi. Abeirámo-nos de falésia, olhámos em frente… e estancámos de surpresa: era uma gruta natural incrustada na rocha, a meio de uma falésia que caia a pique para o mar, e com pessoas lá dentro. Para aceder, havia que caminhar por um trilho talhado na rocha pendurado sobre o mar, sem corrimões ou baias de segurança – para baixo, era o abismo, mas acredito que, nos dias de hoje, as normas de segurança sejam mais eficientes.
| Parets Seques |
| Taula de Torralba |
- Cabrón! hijo de puta!
Fiquei incomodado, mas nem me dei ao trabalho de lhe explicar porque estávamos ali. Foi esta, aliás, a última memória, mesmo através de um insulto, que me ficou de Menorca. Dois meses depois, quando a revista saiu para as bancas, a reportagem causou tanto impacto que, a partir de então, as agências de viagem começaram a incluir Menorca nos seus pacotes turísticos – feliz ou infelizmente.