Houve uma fase em que a revista “Mundial”
mudou de semblante: deixou de se seguir a mesma herança visual da “Volta ao
Mundo”, ficou mais reduzida em termos de formato e as páginas interiores eram agrafadas
e sem lombada. Pelos vistos, a redução de custos era premente e, na realidade,
a revista acabaria por apenas sobreviver durante poucos anos. As reportagens e
entrevistas eram feitas intramuros, com incidência de capas focalizadas nos
chamados três “grandes”, para não ferir susceptibilidades.
Mesmo assim, ainda se realizaram algumas
reportagens fora de portas, tanto mais que era cada vez maior o número de
jogadores portugueses que actuavam em ligas estrangeiras, embora não tantos
como nos dias de hoje. Como é óbvio, não podíamos chegar a todos, limitando-nos
a centrarmos nos mais mediáticos: após Figo em Barcelona, Helder na Corunha,
Cadete em Glasgow e Vigo, Paulo Sousa em Dortmund e Futre em Madrid, chegou a
vez de Rui Costa, em Florença.
A reportagem foi aprazada durante um dos
estágios da Selecção Nacional e ficou tudo acertado com o jogador: dia da
chegada, tempo despendido na cidade e calendário de treinos. Por conta da
revista ficaram o hotel e o aluguer de um automóvel. Mais uma vez, fui acompanhado pelo Nuno
Correia e, mal chegados a Florença, contactámos o jogador a dizer que já lá
estávamos.
- O treino, amanhã, é às dez horas, mas
cheguem um bocadinho mais cedo. Encontramo-nos num cafezinho mesmo ao lado do
estádio, pode ser?
Como tínhamos chegado na véspera, tivemos
tempo para dar um giro por Florença. Foi a minha primeira das muitas vezes que
lá fui e, desde logo, rendi-me incondicionalmente à cidade. O primeiro ponto
visitado foi a Piazza della Signoria, na qual fiquei maravilhado diante
da Catedral de Santa Maria del Fiore e do Campanário, onde Brunelleschi e
Giotto, respectivamente, derramaram a sua genialidade. Impressionaram-me a grandiosidade, a
elegância, as cores, os mármores deste autêntico museu ao ar-livre.
Com a noite a chegar, ainda demos uma
saltada a Pisa, a cidade que tem na sua torre inclinada um dos maires ex-líbris
da Toscana e encetámos o regresso a Florença. Como escrevi anteriormente, foram
mutas, e não demasiadas, as vezes em que estive na capital toscana, mas a
cidade e a província ficam para daqui a mais uns tantos posts, numa
reportagem bastante diferente desta.Manhã cedo dirigimo-nos para o “Artemio
Franchi” tentando perscrutar o tal café que Rui Costa tinha indicado. Entrámos
naquele espaço repleto de cachecóis e galhardetes da Fiorentina, dirigimo-nos
ao balcão para pedir um cappucinno e reparámos que as mesas e cadeiras
estavam ocupadas por pessoas de mais idade, umas a jogar às cartas, outras
apenas a conversar. De Rui Costa, nem sinal.
Só que, num breve espaço de tempo,
começámos a ouvir um burburinho seguido de palavras entusiásticas. Rui Costa
cumprimentou-os, olhou em redor e sentou-se à nossa mesa.
- Então, fizeram boa viagem? Sim?
Ainda bem.
- Sabem, antes dos treinos, faço sempre
questão em passar por aqui. São velhos adeptos da Fiorentina e este é o local
de encontro, cai-lhes muito bem quando um jogador aqui vem.
Despedimo-nos com um “até
já”, porque tínhamos combinado encontrarmo-nos depois do treino.
- Então, vamos almoçar?
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| Estádio Artemio Franchi |
Acompanhámo-lo até um restaurante que
aparentemente, era um dos poisos gastronómicos preferidos de todos os jogadores
e, findo o repasto, rumámos até sua casa, postada na colina de Fiesole, que foi
a génese etrusca da cidade e que tinha uma vista privilegiada para o casario e
para os pináculos dos monumentos. A casa era composta por uma vivenda de dois
andares, com um jardim relvado onde estava desenhado um pequeno campo de
futebol, com balizas e tudo, mas joia da coroa era o “Lamborghini” vermelho
estacionado à entrada- Era o carro que sempre quis,
andei que tempos atrás dele!
Quando entrámos, Rui Costa disse-nos que
podíamos ficar pela sala inferior e, quando olhámos em redor para apreciar o
generoso espaço, saiu uma confidência:
- Esta era a casa do Roberto Baggio,
mas, quando ele saiu, ficou disponível e fiquei logo interessado. Gosto mesmo
muito de estar aqui!
A entrevista correu muito bem, com
boa-disposição e conversas transversais para além de futebol. Falou-nos sobre a
cidade que o encantou logo à primeira vista, sobre a sua adaptação ao
campeonato e à língua italiana e a algo que estranhou pouco depois de chegar ao
clube florentino:
- Vocês não vão acreditar, mas, nos
primeiros jogos, quando se anunciava a constituição da equipa, eu era
assobiado.
Ficámos incrédulos.
- Mas porquê?
- Porque os adeptos pensavam que o
meu nome era Emanuel, por isso, quando gritavam pelo meu nome, eu não reagia,
porque pensava que não era para mim. Ora, para os tifosi, isso caiu-lhes mal.
Tive de explicar que o meu nome é Rui Manuel Costa, e não Emanuele. A partir
daí, deixaram de me assobiar!
Com a entrevista a caminhar para o fim, reparei
num livro pequenino que estava numa estante e, diante da minha curiosidade, ele
disse-me:
- Se quiseres, podes ficar com ele,
é uma oferta minha.
Agradeci, mas acrescentei:
- Já agora, gostava que o autografasses.
Sorriu e escreveu a sua rúbrica, com
dedicatória, naquele livrinho sobre a história da Fiorentina.Já à saída, o Nuno Correia sugeriu-lhe
algo de que me já tinha falado:
- Rui, achas que é possível eu tirar uma
foto contigo e com o Batistuta? Ia ficar bem, tu e ele.
- Sabes, ele é um pouco reservado,
mas eu posso falar com ele. Venham amanhã ao final do treino e depois logo se
vê.
Expliquemos para os menos entendidos em
futebol: Gabriel Batistuta, argentino, era o “craque” da Fiorentina, um
goleador exímio que era um verdadeiro ídolo para os tifosi da “Fiore”.
Com bastante expectativa, aguardámos na
sala de imprensa que Rui Costa aparecesse com novidade, e disse assim que nos
viu:
- Não foi fácil, mas ele concordou.
Tive de fazer um choradinho a dizer que vocês eram portugueses e que era só um
foto, que não a custar nada. Aguardem por nós, vamos só equipar-nos e já vimos.
O Nuno tratou de arranjar um espaço na
sala de imprensa, colocou as luzes e os reflectores e conferiu a máquina fotográfica
ml e uma vezes. Assim que os dois chegaram, todos os jornalistas italianos que
estavam presentes correram na direcção dos jogadores com as câmaras em riste.
Rui Costa elevou a voz e, com ar irado,
disse-lhes que aquilo era só exclusivo para portugueses, perante a resignação
dos outros jornalistas.
Pelo sim, pelo não, correu-se um pano que
ocultava aquele canto da sala. A sessão foi rápida, mas bem conseguida e, no
fim, tive o atrevimento de sugerir uma entrevista ao “astro” argentino.
Notei-lhe uma hesitação, mas, devo ter feito um ar tão suplicante, que ele
disse-me que, apesar de não ser a melhor altura, falaríamos mais tarde – embora
sem qualquer data marcada.Obviamente, a reportagem teria de incluir
um jogo de futebol, mas o calendário não ajudou. Pensávamos fazer um jogo no
“Artemio Franchi”, mas, no tempo em que estivemos em Florença, o único desafio
agendado seria fora, mais precisamente em Bérgamo, diante da Atalanta.
E assim foi, numa viagem que, já não muito
distanciada da cidade lombarda, comecei a ver os cumes majestosos dos Alpes
ainda cobertos de neve. Uma bela visão, mas que não teve direito a uma paragem
porque o tempo urgia.
Foi o primeiro jogo que vi do campeonato
transalpino, por isso tudo para mim era novidade – os fervorosos tifosi
locais, a tosca bancada de imprensa do antigo “Atleti Azzurri d’Italia”, os
adeptos da Fiorentina enjaulados numa caixa vedada, os cânticos incessantes.
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Bérgamo - Atalanta-Fiorentina, com os Alpes como pano de fundo |
O jogo foi de nervos. A Atalanta precisava
de uma vitória que lhes garantia a certeza de se manter na série A, a
Fiorentina tinha o mesmo objectivo, de forma a garantir a presença nas
competições europeias. Mas no final foram os bergamascos que fizeram a festa,
com um concludente 2-0.Após o término da partida, abeirámo-nos da
cabina forasteira e esperámos pela saída dos jogadores. Era uma confusão
enorme, com dezenas de adeptos a gritar e a solicitar autógrafos. Mas eu tinha
mesmo chegar à fala com Batistuta para combinar a apalavrada entrevista. Furei,
fui empurrado, empurrei, até dar por mim dante dele, mas rapidamente fui
recambiado dali para fora. Voltei para a capital toscana resignado, teria sido
muito fixe sacar-lhe uma entrevista.
Nessa mesma noite, fomos jantar a um
restaurante que tínhamos ouvido falar bastante bem. Estávamos à espera de
sermos atendidos, quando olhei para o lado e vi Batistuta, a mulher e as filhas
à mesa. Excelente!
Abeirei-me em pezinhos de lã e, tentando
esgrimir o meu melhor castelhano, falei-lhe da entrevista supostamente
combinada.
- Gabriel, peço desculpa, mas posso
interromper?
- Escuta, eu estou aqui a jantar
com a minha família e não quero ser incomodado.
Pedi desculpa e saí dali cabisbaixo, mas
ele chamou-me inesperadamente:
- Pronto, eu sei que são portugueses, o
Rui falou-me bem de vocês e posso fazer o seguinte: dou-te o meu número de
telemóvel, não o divulgues a ninguém e depois combinamos.
- A questão é que vamos embora amanhã…
- Então liga-me de Portugal.
Fui à minha mesa, puxei de uma caneta e
apontei num guardanapo de papel o precioso contacto. Desfiz-me em
agradecimentos e voltei para a minha mesa de bem com o mundo. Mais tarde, já em Lisboa, digitei o número do
“astro” argentino, mas não estava escrito nos astros que ele atendesse – foi o
mais perto que estive de entrevistar Batistuta, o que não é lá grande coisa.
No último dia assistimos ao derradeiro
treino. Na sala de imprensa, solicitámos Rui Costa ao assessor de imprensa para
nos despedirmos. Quando ele chegou, falámos brevemente, agradecemos a sua
simpatia e disponibilidade e ele desejou-nos boa viagem. Num último gesto.
virou-se para mim com um sorriso:- Tenho outro livro para te
oferecer, é este
Olhei para a capa com o título “Il mio
10 per Firenze”, uma biografia com um jogo de palavras: 10 era o número de
Rui Costa, que atribuía a nota 10 à cidade de Florença.
Na realidade, também eu dou o meu 10 a
Florença, mesmo que nunca tenha utilizado esse número numa camisola.