Translate

18 fevereiro 2026

A primeira experiência brasileira - Nordeste

Estava há pouco tempo na “Volta ao Mundo” e, nesse primeiro mês e meio, limitei-me a editar textos de colaboradores, com constantes idas à sala da paginação para cortar ou acrescentar palavras de forma a que se ajustassem às páginas. Nessa altura, e como era o elemento mais recente da redacção, sempre imaginei que o meu primeiro trabalho seria intramuros, uma vez que a revista contemplava uma secção dedicada a Portugal. Algo como “As maravilhosas rotundas de Viseu” ou os estaleiros da Lisnave. Mas não, afinal tocou-me o Mosteiro da Batalha – menos mal.
Certo dia, acabado de chegar à redacção, o director André Pipa virou-se para mim:
- Sabes, há aí um convite
Fiquei suspenso do que viria a seguir.
- Então é assim: nenhum de nós pode ir, pontanto quero saber se queres…
Não fazia ideia qual o teor do convite, mas a resposta saiu sem pensar:
-Quero!
-Então, pronto, está decidido.
-Já agora, qual é a reportagem?
- Já alguma vez foste a Brasil?
- Não…
- Então vais agora!
Nem queria acreditar, senti-me nas nuvens e num aparvalhado estado de euforia – para primeira viagem, era bom demais!


O convite era da “Sittis”, uma empresa de eventos que pretendia inaugurar uma nova rota turística inovadora, e, fiquei também a saber que ia ter como companheiro de viagem o Luís Filipe Catarino.
No terminal do aeroporto, todo eu irradiava alegria e entusiasmo, e percebi, ao fazer o chek-in, que não éramos só nós a embarcar, pois, além do organizador da empresa, havia mais oito elementos. Ao princípio, pensei que eram jornalistas, mas só depois fiquei a saber que eram agentes de viagem. Ao longo da travessia sobre o Atlântico, passei o tempo todo a conversar com o Luís, onde descobrimos gostos comuns e uma empatia imediata – mal sabíamos que seria a primeira das muitas viagens que faríamos juntos daí em diante! E foi também em pleno voo que nos entregaram o programa da viagem, que consistia num trajecto de buggy pelo litoral do Nordeste brasileiro ao longo de cinco dias e, ainda, uma extensão de três dias em Salvador da Bahia.
Assim que aterrámos, senti-me agraciado pelo calorzinho húmido no trajecto a pé até ao terminal - era Novembro e Portugal estava a tiritar de frio. Ainda no aeroporto, foi-nos apresentada a Rosana, a guia que nos acompanharia nos primeiros dias. No trajecto até ao hotel, dentro de um autocarro, a jovem brasileira desafiou-nos:
- Bem, para que a viagem seja divertida, proponho que cada um de vocês execute uma dança individual ao gosto de cada um.
Ficámos indecisos, mas, quando o primeiro arriscou, todos os outros o secundaram à vez ao longo do corredor central. Rimo-nos bastante, mas os outros ainda se riram mais quando viram a dança grotesca quando chegou a minha vez. Por uma questão de decoro, prefiro não relatar aquilo que fiz e nem os passos que executei…
Depois de termos deixado as malas no hotel “Caesar Park” voltámos para o autocarro para termos um vislumbre de Fortaleza: a Avenida Abolição, a Catedral, o Forte, o Centro Cultural, o Mercado do Peixe, a Praça dos Stressados e algumas praias enxameadas de gente. Sinceramente, não morri de amores por Fortaleza e, no íntimo, senti ansiedade para que chegasse o dia seguinte, onde iria começar a aventura.
Acordei fresquinho da silva e fui tomar o pequeno-almoço na varanda, voltando a sentir aquele morninho matinal. 


Fortaleza - Foi  aqui que tudo começou
Chegado o grande dia, fomos apresentados aos bugueiros, os condutores dos buggys, e a nós tocou-nos o Daniel, que nos olhou com ar divertido e com uma pergunta:
- Qual de vocês é o Rolão?
Dei um passo em frente.
- Com você eu não quero ir, não!
Fiquei espantado, mas ele tratou de esclarecer:
- Sabe o que é rola em brasileiro?
E eu sabia, por caso sabia o significado daquela palavra.
- Portanto, não sei se é seguro para mim ter você dentro do bugue, por causa do excesso de peso!
Riu-se alarvemente e eu limitei-me a dar um sorriso amarelo.
 

De Fortaleza a Canoa Quebrada
 


Saltámos para dentro do carrinho, fizemos um desfile pelas ruas asfaltadas da cidade e em breve, chegámos à praia de Iracema, onde se ia iniciar uma viagem de 700KM distribuídos por cinco dias, sempre pelas praias do litoral nordestino, parando para almoçar em botecos à beira-mar e a pernoitar junto aos areais. No primeiro dia, foi um desfilar de praias encantatórias: Prainha, Morro Branco e das Fontes, onde parámos para almoçar e nos despedirmos da Rosana. Depois, foi só seguir para o término da primeira etapa em Canoa Quebrada, cujas ruas são de areia avermelhada e com a artéria principal a dar pelo nome de Broadway.

Canoa Quebrada
Acordei esfaimado na Pousada da Falésia e dirigi-me para o café da manhã, perdão, para o pequeno-almoço servido na esplanada. Olhei para cima da mesa e vi diversos jarros de vidro com o nome dos sumos, alguns dos quais que nunca tinha ouvido falar, além dos triviais de laranja, morango, ananás e manga – acerola, açaí, beribá, jenipapo, tucumã, uxi, guabiroba, graviola, abacate…
 
Canoa Quebrada-Mossoró
 
Depois foi voltar para o buggy e continuar a jornada do dia: praias de Fontainha, da Ponta Grossa, Redonda, onde parámos para almoçar. Depois dos camarões e dos lavagantes, os bugueiros desafiaram-nos para um jogo de futebol na areia, eles contra os passageiros. O Daniel ufanava-se que era bom de bola e eu, por uma questão de honra lusitana, fiz questão em que ele não passasse por mim. 


Praia Redonda
A determinada altura, fiz um “carrinho”, desarmei-o, e percebi que, nesse movimento intrépido, tinha raspado com o joelho na areia e estava a sangrar. O jogo foi interrompido e, quando dei por mim, estava a ser transportado aos ombros por outro bugueiro que me deitou em cima de uma mesa, olhou a ferida e foi peremptório:
- Cara, isso está feio, vou ter de amputar!
Olhei-o a rir, mas fiquei suspenso quando o vi com um facalhão em riste. Num pulo, saltei da mesa, fugi para a praia e ainda a tempo de ganhar o jogo, perante os protestos do Daniel a dizer “batota, batota!”.
Seguimos caminho, sempre à beira-mar: Mutantes, Mutamba, Manibú (fim do Ceará, início do Rio Grande do Norte), Tibau do Norte, Grossos e Mossoró, onde ficámos instalados no hotel “Thermas”, que, como o nome indica, tem piscinas naturais em socalcos com temperaturas que variam entre 5C e os 26º.
 
Mossoró-São Miguel do Gostoso
 
O terceiro dia contemplou mais praias, praias e praias. Certo que todas engodavam a vista, mas, a determinada altura, eram mais do mesmo, mas em bom. E foi assim que fomos passando por Baixa Grande, Redondas, Porto de Mangue, Ponta do Mel, Pedra Branca, Rosado – que teve uma pequena paragem para um mergulho, 5 minutos ao sol e s sensação de liberdade total – e, à passagem por Macau, uma área de salinas, fomos açoitados pela espuma de sal arrastada pelo vento, revestindo a estrada – seguindo para Galos, Caiçara e Raly. 


São Miguel do Gostoso
Esta última foi a que mais dificuldades apresentou: era noite feita, estávamos atrasados e, com a subida da maré, a praia limitava-se a uma estreita língua de areia em que a água batia nas rodas da direita e as rodas esquerdas rasgavam os sopés das dunas. No meio daquela correria quase alucinante, o Luís não parava de contar anedotas, talvez para descontrair. Mas ainda havia um troço por fazer, passando pela praia do Marco e o seu padrão de descobrimentos, até ao destino do dia, São Miguel do Gostoso. Jantámos e pernoitámos na pousada dos Cruzeiros, desgastados pelos 300Km cumpridos desde Mossoró.
 
São Miguel do Gostoso-Natal
 
O último dia, um pouco nostálgico até, foi mais curto, pois contemplou a praia e o farol de Touros, a travessia de balsa do rio Punau e o Cabo de S. Roque, que marca a menor distância entre a América do Sul e África. A 50km de Natal, as paisagens cambiaram e começámos a ver cada vez mais bugueiros, e as razões eram mais que óbvias: estávamos em Jenipabu, que é domínio das dunas de areia debruçadas para o mar.

Travessia de balsa
Daniel interpelou-nos:
- Querem com muita ou pouca emoção?
Demos a resposta evidente.
 - Então segurem-se bem e fiquem de pé.
Foi alucinante. O buggy subiu e desceu as dunas a uma velocidade vertiginosa, quase caiu a pique em manobras arriscadas…  mas divertidas – só experimentando, para se ter a noção concreta. Terminado esta espécie de “Paris-Dakar” na areia, parámos finalmente, com os outros buggys dos nossos companheiros alinhados lado-a-lado no cume de uma das dunas –
um pouco ao longe, piscavam as luzes de Natal.

Jenipabu - Dunas e malabarismos




Para chegar à cidade, ainda teve de se fazer a travessia do rio Potegi num ferry, mas sabia-se que esta última noite seria dedicada ao seu usufruto. Na componente cultural, visitámos o Forte dos Reis Magos e o teatro Alberto Maranhão, e parte da noite foi passada na discoteca Casquinha de Siri.
Mas este périplo pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte não correspondeu à totalidade da viagem. Seguiu-se outro estado e outra cidade.


 


Salvador da Bahia
 
A última etapa não implicou buggys, bugueiros e praias. Apanhámos um voo de 3h30 que nos levou até Salvador, onde, como primeiro contacto, fomos ao mercado Modelo, contemplámos a Baía de Todos os Santos e visitámos o centro histórico da grande urbe: a paleta de cores que é o Largo do Pelourinho, o Forte de Santo António e, sendo uma cidade com 184 igrejas, obviamente não tivemos tempo para todas, pelo que nos dedicámos exclusivamente à de São Francisco de Assis, repleta de talha dourada artisticamente burilada.

Largo do Pelourinho
Entre os grandes ex-líbris, não podíamos passar ao lado, mesmo que não quiséssemos, de algo pouco monumental. Fiquei lívido quando vi uma baiana opulenta, vestida com aqueles vestidos garridos e coloridos atracar-se a mim que nem uma lapa, exigindo que nos tirassem uma foto em pose. O Luís fez-lhe o favor e, antes que ela começasse a pedir dinheiro, escapulimo-nos dali para fora, mas fomos travados uns metros adiante: num ápice, ficámos rodeados por dezenas de putos que não desgrudavam a impingir fitinhas do Senhor do Bonfim. 


Sem hipóteses de escapatória, comprei uma carrada delas – mais tarde foram úteis, pois distribuí aquelas fitinhas coloridas pelos meus amigos como prendas de aniversário. A noite foi passada num bar na área em redor do Pelourinho, onde aprendi a fazer caipirinha e ser apresentado a um adivinho, que insistiu em prever o meu futuro. Concentrou-se, chocalhou umas padras coloridas, acendeu incensos e aspirou o fumo, murmurou umas palavras indecifráveis, fechou os olhos e abriu-os logo de seguida para dizer o que o futuro me reservava – passados todos estes anos, posso garantir que, senão falhou em tudo, falhou em quase tudo.
A última noite passada no belíssimo “Hotel Catharina Paraguaçu”, com a certeza de que o dia seguinte seria o da despedida. Esse foi feito ao sabor de cada um, eu e o Luís demos mais uns giros até que ele me lançou um repto:


 - Queres provar acarajé?
- Aracajé?
- Não pá, acarajé!
-Seja, mas o que raio é isso?
- Epá, é uma coisa para comer.
- Certo, mas o que é?
- Confias em mim?
Fiquei desconfiado, mas acedi.
Coloquei uns bolinhos no molho do recipiente, levei-os à boca… e senti-me entrar em órbitra, soltando labaredas enquanto praguejava. Nunca mais voltarei a confiar no Catarino.

Um mês depois, em casa de um dos companheiros de viagem, assistimos a uma sessão de slides que o Catarino tinha tirado ao longo dos dias – e foi divertido recordar episódios e paisagens da aventura pelo nordeste brasileiro.


16 fevereiro 2026

Da "Mundial" para a "Volta ao Mundo"

Com o fecho da revista “Mundial”, obviamente que todos ficámos preocupados e a fazer contas à vida. No entanto, perante todos os elementos da redacção, o administrador Paulo Ferreira deixou-nos uma mensagem de relativa tranquilidade:
- Não quero deixar ninguém fora da editora, portanto vou chamar-vos um a um para decidir o melhor para todos nós.

À vez, parecia que caminhávamos para o cadafalso. O fotógrafo Nuno Correia enveredou pela via free-lance, embora com algumas ligações a projectos da editora, e o Gonçalo Pereira passou a fazer parte da National Geographic Magazine-Portugal, outra das revistas garantidas pelo grupo.
Até que chegou a minha vez. Entrei no gabinete bastante expectante e sem saber bem o que me esperava, por isso deixei a iniciativa para o Paulo Ferreira:
- Bom, como vos disse, não quero deixar ninguém apeado, e tu muito menos. Portanto, diz-me uma coisa: entre as revistas da editora, qual aquela em que achas que te encaixarias melhor?
As opções seriam a “Viver com Saúde”, a “National Geographic” – opção inválida porque o Gonçalo já tinha ocupado o lugar – e o “Mundo do CD-Rom”. Ora nenhuma destas conjecturas me agradava: saúde nunca foi o meu forte e ficava com sintomas de desmaio à mínima gota de sangue e, por outro lado, estava a léguas de ser um perito em informática. A minha resposta saiu de rajada:
- Sem dívida a “Volta ao Mundo”.
Vi o Paulo Ferreira pensativo e com um sorriso enigmático.
- A Volta ao Mundo?
Achei que era a ocasião certa para o convencer:
- Paulo, eu sempre gostei de viagens, aliás, enquanto estava na “Mundial, passava os meus dias de férias a viajar de carro pela Europa…
E joguei a carta de trunfo:
- Por acaso, antes de entrar para a “Mundial”, comprava religiosamente a “Volta ao Mundo todos os meses. Sempre gostei da temática das viagens e, modéstia à parte, tenho muito bens conhecimentos da matéria.
Fiquei ansioso pelo veredicto, até que o Paulo comentou:
- Mas tu vens do desporto, até acho que a tua carreira sempre foi ligada ao meio desportivo…
A resposta saiu-me de supetão:
- Mas o André Pipa e o Paulo Gama também, um veio de “A Bola” e o outro do “Record”, portanto…
- Sim, isso é verdade… Mas, se queres que te diga, estava a pensar integrar uma jornalista, para dar um toque mais feminino à revista…
A minha réplica surgiu da imaginação do momento:
- Que não seja por isso, posso vir de saia-travada e saltos-altos!
O Paulo, aqui, não sorriu, antes desatou às gargalhadas.
- Então é a “Volta ao Mundo”?
- É!
- Ok, então eu vou apresentar-te à equipa.
- Obviamente já os conheço, mas vamos lá.


Saímos juntos do gabinete e fomos até ao espaço da redacção da ”VM”.  A equipa era formada pelo director André Pipa, que já conhecia, embora mal, dos tempos do jornal “Sporting”, pelo editor  Paulo Gama, pelos fotógrafos Miguel Valle de Figueiredo e Luís Filipe Catarino, os designers Ana Revez e Pedro Antunes, os infógrafos Luís Taklim, Leonel Pinto e Mário Carvalho, transversais a outra revistas, além da secretária Helena Abreu.





O Paulo pediu um minuto de atenção:
- Meus caros, a partir de agora o Paulo Rolão vai fazer parte da “Volta ao Mundo”.  Mas faço questão que ele mantenha o cargo de editor, como já era na “Mundial”.
Quando o Paulo Ferreira saiu, o Paulo Gama disse-me qual era a minha mesa de secretária, precisamente em frente à dele, e fiz questão de lhe dizer:
- Paulo, eu sei que tu és o editor, mas fui apanhado de surpresa quando ele disse que mantinha o mesmo cargo, nada disto tinha sido abordado…
O Gama, com a fleuma habitual, tranquilizou-me:
- Podes ficar descansado, não há problema, dividimos a meias e passamos a ser os dois a editar.
E pronto, foi desta forma que entrei na “Volta ao Mundo” – e um novo mundo por descobrir.

06 fevereiro 2026

Último capítulo futebolístico: Florença

Houve uma fase em que a revista “Mundial” mudou de semblante: deixou de se seguir a mesma herança visual da “Volta ao Mundo”, ficou mais reduzida em termos de formato e as páginas interiores eram agrafadas e sem lombada. Pelos vistos, a redução de custos era premente e, na realidade, a revista acabaria por apenas sobreviver durante poucos anos. As reportagens e entrevistas eram feitas intramuros, com incidência de capas focalizadas nos chamados três “grandes”, para não ferir susceptibilidades.

Mesmo assim, ainda se realizaram algumas reportagens fora de portas, tanto mais que era cada vez maior o número de jogadores portugueses que actuavam em ligas estrangeiras, embora não tantos como nos dias de hoje. Como é óbvio, não podíamos chegar a todos, limitando-nos a centrarmos nos mais mediáticos: após Figo em Barcelona, Helder na Corunha, Cadete em Glasgow e Vigo, Paulo Sousa em Dortmund e Futre em Madrid, chegou a vez de Rui Costa, em Florença.

A reportagem foi aprazada durante um dos estágios da Selecção Nacional e ficou tudo acertado com o jogador: dia da chegada, tempo despendido na cidade e calendário de treinos. Por conta da revista ficaram o hotel e o aluguer de um automóvel. Mais uma vez, fui acompanhado pelo Nuno Correia e, mal chegados a Florença, contactámos o jogador a dizer que já lá estávamos.

- O treino, amanhã, é às dez horas, mas cheguem um bocadinho mais cedo. Encontramo-nos num cafezinho mesmo ao lado do estádio, pode ser?

Como tínhamos chegado na véspera, tivemos tempo para dar um giro por Florença. Foi a minha primeira das muitas vezes que lá fui e, desde logo, rendi-me incondicionalmente à cidade. O primeiro ponto visitado foi a Piazza della Signoria, na qual fiquei maravilhado diante da Catedral de Santa Maria del Fiore e do Campanário, onde Brunelleschi e Giotto, respectivamente, derramaram a sua genialidade. Impressionaram-me a grandiosidade, a elegância, as cores, os mármores deste autêntico museu ao ar-livre.

Com a noite a chegar, ainda demos uma saltada a Pisa, a cidade que tem na sua torre inclinada um dos maires ex-líbris da Toscana e encetámos o regresso a Florença. Como escrevi anteriormente, foram mutas, e não demasiadas, as vezes em que estive na capital toscana, mas a cidade e a província ficam para daqui a mais uns tantos posts, numa reportagem bastante diferente desta.

Manhã cedo dirigimo-nos para o “Artemio Franchi” tentando perscrutar o tal café que Rui Costa tinha indicado. Entrámos naquele espaço repleto de cachecóis e galhardetes da Fiorentina, dirigimo-nos ao balcão para pedir um cappucinno e reparámos que as mesas e cadeiras estavam ocupadas por pessoas de mais idade, umas a jogar às cartas, outras apenas a conversar. De Rui Costa, nem sinal.

Só que, num breve espaço de tempo, começámos a ouvir um burburinho seguido de palavras entusiásticas. Rui Costa cumprimentou-os, olhou em redor e sentou-se à nossa mesa.

- Então, fizeram boa viagem? Sim? Ainda bem.

- Sabem, antes dos treinos, faço sempre questão em passar por aqui. São velhos adeptos da Fiorentina e este é o local de encontro, cai-lhes muito bem quando um jogador aqui vem.

Despedimo-nos com um “até já”, porque tínhamos combinado encontrarmo-nos depois do treino.

- Então, vamos almoçar?

Estádio Artemio Franchi
Acompanhámo-lo até um restaurante que aparentemente, era um dos poisos gastronómicos preferidos de todos os jogadores e, findo o repasto, rumámos até sua casa, postada na colina de Fiesole, que foi a génese etrusca da cidade e que tinha uma vista privilegiada para o casario e para os pináculos dos monumentos. A casa era composta por uma vivenda de dois andares, com um jardim relvado onde estava desenhado um pequeno campo de futebol, com balizas e tudo, mas joia da coroa era o “Lamborghini” vermelho estacionado à entrada

- Era o carro que sempre quis, andei que tempos atrás dele!

Quando entrámos, Rui Costa disse-nos que podíamos ficar pela sala inferior e, quando olhámos em redor para apreciar o generoso espaço, saiu uma confidência:

- Esta era a casa do Roberto Baggio, mas, quando ele saiu, ficou disponível e fiquei logo interessado. Gosto mesmo muito de estar aqui!

A entrevista correu muito bem, com boa-disposição e conversas transversais para além de futebol. Falou-nos sobre a cidade que o encantou logo à primeira vista, sobre a sua adaptação ao campeonato e à língua italiana e a algo que estranhou pouco depois de chegar ao clube florentino:

- Vocês não vão acreditar, mas, nos primeiros jogos, quando se anunciava a constituição da equipa, eu era assobiado.

Ficámos incrédulos.

- Mas porquê?

- Porque os adeptos pensavam que o meu nome era Emanuel, por isso, quando gritavam pelo meu nome, eu não reagia, porque pensava que não era para mim. Ora, para os tifosi, isso caiu-lhes mal. Tive de explicar que o meu nome é Rui Manuel Costa, e não Emanuele. A partir daí, deixaram de me assobiar!

Com a entrevista a caminhar para o fim, reparei num livro pequenino que estava numa estante e, diante da minha curiosidade, ele disse-me:

- Se quiseres, podes ficar com ele, é uma oferta minha.

Agradeci, mas acrescentei:

- Já agora, gostava que o autografasses.

Sorriu e escreveu a sua rúbrica, com dedicatória, naquele livrinho sobre a história da Fiorentina.

Já à saída, o Nuno Correia sugeriu-lhe algo de que me já tinha falado:

- Rui, achas que é possível eu tirar uma foto contigo e com o Batistuta? Ia ficar bem, tu e ele.

- Sabes, ele é um pouco reservado, mas eu posso falar com ele. Venham amanhã ao final do treino e depois logo se vê.

Expliquemos para os menos entendidos em futebol: Gabriel Batistuta, argentino, era o “craque” da Fiorentina, um goleador exímio que era um verdadeiro ídolo para os tifosi da “Fiore”.

Com bastante expectativa, aguardámos na sala de imprensa que Rui Costa aparecesse com novidade, e disse assim que nos viu:

- Não foi fácil, mas ele concordou. Tive de fazer um choradinho a dizer que vocês eram portugueses e que era só um foto, que não a custar nada. Aguardem por nós, vamos só equipar-nos e já vimos.

O Nuno tratou de arranjar um espaço na sala de imprensa, colocou as luzes e os reflectores e conferiu a máquina fotográfica ml e uma vezes. Assim que os dois chegaram, todos os jornalistas italianos que estavam presentes correram na direcção dos jogadores com as câmaras em riste.

Rui Costa elevou a voz e, com ar irado, disse-lhes que aquilo era só exclusivo para portugueses, perante a resignação dos outros jornalistas.


Pelo sim, pelo não, correu-se um pano que ocultava aquele canto da sala. A sessão foi rápida, mas bem conseguida e, no fim, tive o atrevimento de sugerir uma entrevista ao “astro” argentino. Notei-lhe uma hesitação, mas, devo ter feito um ar tão suplicante, que ele disse-me que, apesar de não ser a melhor altura, falaríamos mais tarde – embora sem qualquer data marcada.

Obviamente, a reportagem teria de incluir um jogo de futebol, mas o calendário não ajudou. Pensávamos fazer um jogo no “Artemio Franchi”, mas, no tempo em que estivemos em Florença, o único desafio agendado seria fora, mais precisamente em Bérgamo, diante da Atalanta.

E assim foi, numa viagem que, já não muito distanciada da cidade lombarda, comecei a ver os cumes majestosos dos Alpes ainda cobertos de neve. Uma bela visão, mas que não teve direito a uma paragem porque o tempo urgia.

Foi o primeiro jogo que vi do campeonato transalpino, por isso tudo para mim era novidade – os fervorosos tifosi locais, a tosca bancada de imprensa do antigo “Atleti Azzurri d’Italia”, os adeptos da Fiorentina enjaulados numa caixa vedada, os cânticos incessantes.


Bérgamo - Atalanta-Fiorentina,
com os Alpes como pano de fundo
O jogo foi de nervos. A Atalanta precisava de uma vitória que lhes garantia a certeza de se manter na série A, a Fiorentina tinha o mesmo objectivo, de forma a garantir a presença nas competições europeias. Mas no final foram os bergamascos que fizeram a festa, com um concludente 2-0.

Após o término da partida, abeirámo-nos da cabina forasteira e esperámos pela saída dos jogadores. Era uma confusão enorme, com dezenas de adeptos a gritar e a solicitar autógrafos. Mas eu tinha mesmo chegar à fala com Batistuta para combinar a apalavrada entrevista. Furei, fui empurrado, empurrei, até dar por mim dante dele, mas rapidamente fui recambiado dali para fora. Voltei para a capital toscana resignado, teria sido muito fixe sacar-lhe uma entrevista.

Nessa mesma noite, fomos jantar a um restaurante que tínhamos ouvido falar bastante bem. Estávamos à espera de sermos atendidos, quando olhei para o lado e vi Batistuta, a mulher e as filhas à mesa. Excelente!

Abeirei-me em pezinhos de lã e, tentando esgrimir o meu melhor castelhano, falei-lhe da entrevista supostamente combinada.

- Gabriel, peço desculpa, mas posso interromper?

- Escuta, eu estou aqui a jantar com a minha família e não quero ser incomodado.

Pedi desculpa e saí dali cabisbaixo, mas ele chamou-me inesperadamente:

- Pronto, eu sei que são portugueses, o Rui falou-me bem de vocês e posso fazer o seguinte: dou-te o meu número de telemóvel, não o divulgues a ninguém e depois combinamos.

- A questão é que vamos embora amanhã…

- Então liga-me de Portugal.

Fui à minha mesa, puxei de uma caneta e apontei num guardanapo de papel o precioso contacto. Desfiz-me em agradecimentos e voltei para a minha mesa de bem com o mundo.  Mais tarde, já em Lisboa, digitei o número do “astro” argentino, mas não estava escrito nos astros que ele atendesse – foi o mais perto que estive de entrevistar Batistuta, o que não é lá grande coisa.

No último dia assistimos ao derradeiro treino. Na sala de imprensa, solicitámos Rui Costa ao assessor de imprensa para nos despedirmos. Quando ele chegou, falámos brevemente, agradecemos a sua simpatia e disponibilidade e ele desejou-nos boa viagem. Num último gesto. virou-se para mim com um sorriso:

- Tenho outro livro para te oferecer, é este

Olhei para a capa com o título “Il mio 10 per Firenze”, uma biografia com um jogo de palavras: 10 era o número de Rui Costa, que atribuía a nota 10 à cidade de Florença.

Na realidade, também eu dou o meu 10 a Florença, mesmo que nunca tenha utilizado esse número numa camisola.

 

21 janeiro 2026

Futebol de rua entre Viena e Londres

Foram apenas duas as vezes em que fui convidado para reportar um evento, do qual pouco conhecia, espaçado em dois anos consecutivos, em não mais do que dois ou três dias em cada um deles, tendo como palco Viena e Londres.

Na altura, a Puma, uma marca desportiva alemã, tentava implementar-se em Portugal, até porque muitíssimas poucas equipas utilizavam o logo do felino nos seus equipamentos, pelo menos os ditos três “grandes” – a adidas era predominante.

Abra-se um parêntese para contar a história de dois irmãos alemães, Adol (ou Adi) e Rudolf Dassler, que fundaram um inovador método de fabricar calçado desportivo. Adi era o sapateiro e Rudolf era o homem dos negócio e distribuição. A questão era que os dois tinham visões diferentes do produto, ao ponto de – eles que eram até então inseparáveis – se terem tornado inimigos. Adi continuou a fabricar as sapatilhas, fundado a “adidas” (junção do nome próprio com as primeiras três letras do apelido) e Rudolf decidiu criar uma marca diferente, a “Puma”. Certo é que continuaram de costas voltadas, ao ponto de, após as suas mortes, as campas terem ficado o mais afastadas possível uma da outra no cemitério local.

Retomemos o fio à meada: o futebol de rua, ou Street Soccer, era um desporto já com forte implementação na Europa, chegando a haver, inclusive, competições devidamente organizadas. Embora Portugal estivesse um pouco à margem, decidiu-se fazer um campeonato à pressa para ter uma equipa representante – a vencedora iria estar em Viena, local do torneio internacional.

Muitos poderão questionar o que é, afinal, o futebol de rua. Todos os miúdos e graúdos jogam à bola na rua por Portugal inteiro, em vilas, aldeias e cidades, mas o Street Soccer é diferente e tem as suas próprias regras: a quadra é pequena, as tabelas e as balizas são insufláveis e os guarda-redes não podem sair da área.

Quadra do futebol de rua

Os responsáveis pela Puma em Portugal endereçaram um convite para que um jornalista da “Mundial” acompanhasse o evento, e tocou-me a mim essa tarefa.

Sinceramente, pouco retenho na memória dos dois dias passados na capital austríaca. Recordo o hotel mal-amanhado em que fiquei instalado num subúrbio da cidade, alguns jogos, nos quais os portugueses ainda estava a tentar perceber as regras, e num dos intervalos entre as partidas, ter dado uma volta ao quarteirão para ter minimamente um vislumbre de Viena. Estive numa praça monumental, da nunca retive o nome, e apercebi-me de que a cidade ostentava um certo garbo. E foi isto, tão simplesmente, só isto.

Além de ter voltado para Portugal com algumas ofertas da Puma: um saco de viagem, um impermeável, um equipamento de futebol e uma Sweat-shirt.

 

Algures em Viena

No ano seguinte, recebeu-se novo convite e, como já tinha tido a experiência de Viena, foi com naturalidade que voltei a acompanhar o Street Soccer, desta vez em Londres.

Os jogos decorreram na Wembley Arena, uma espécie de pavilhão por baixo do mítico estádio, mas infelizmente não tive a oportunidade de aceder às suas bancadas. A prestação da equipa portuguesa foi sofrível, mas um dos jogos valeu pela presença de umas garbosas – e não só –cheerleaders que abrilhantaram o torneio.


Para já, adiante-se que usufrui mais da capital britânica comparativamente à capital austríaca, não tanto por ter estado mais um dia, mas sim por ter absorvido algo mais substancial.

Um dos pontos altos durante a visita foi ter ido ao mercado de Notting Hill, um dos bairros mais charmosos de Londres – à parte o Hugh Grant e a Julia Roberts.  O mercado é uma roda-viva de visitantes e curiosos em busca de todo um mundo vintage em preço de saldo: antiguidades, discos de vinil, vestuário, placas de matrícula e de nomes de ruas, e até frutas, verduras e especiarias.

Mercado de Notting Hill, Portobello Road

Em dias de sol é uma alegria, não só pelo corrupio de gentes de todo o mundo, mas também pelas fachadas coloridas da Portobello Road. Tive pena de não ter ido a Camden, o outro mercado carismático de Londres. Talvez numa próxima, quem sabe.

Depois de Notting Hill, um dos representantes da Puma disse-me que tinha bilhetes para um jogo de futebol e se eu queria ir. Obviamente, não queria perder a oportunidade de assistir ao vivo a um jogo da Championship (a segunda divisão inglesa) entre o AFC Wimbledon e o Derby County FC. Quando dei por mim, percebi que o meu bilhete era entre os hooligans locais, mas adorei ter estado no Plough Lane a ver um jogo acérrimo tipicamente britânico e ainda ter tido a sorte de ver 6 golos – 3-3.

Cena do quotidiano londrino: autocarros, táxis e metropolitano

A última noite, já com o torneio encerrado, consistiu num jantar com todos os representantes da Puma no “Planet Hollywood”. Nunca consegui resistir a umas generosas ribs com aquele fantástico molho barbecue – foi, de longe. a mais saborosa despedida de Londres.

 

 

21 dezembro 2025

De Glasgow a Vigo com Jorge Cadete

Ainda na senda dos futebolistas portugueses que jogaram em ligas estrangeiras, teríamos de ir à Escócia para fazer uma reportagem com Jorge Cadete, que eu já conhecia desde os tempos do jornal “Sporting”, e que, depois de sair de Alvalade, onde tinha o estatuo de “capitão” de equipa, rumou para o Celtic FC, um dos “grandes” clubes escoceses, a par do Rangers FC e que, curiosamente, continuou a jogar com a camisola listada horizontalmente de verde e branco – pelo menos, não foi por aí que poderia sentir-se desambientado. Certo, certo, é que o jogador gerou uma enorme onda de popularidade e rapidamente caiu no goto dos exigentes supporters do clube, que adoravam o seu espírito “guerreiro” em campo e pelos golos em catadupa que ia marcando.
Antes do mais, há que fazer um apanhado geral do futebol escocês, que tem diversas particularidades. Há dois clubes que dominam a centenária liga – com uma ou outra intromissão do Aberdeen FC de Sir Alex Ferguson – e que contemplam uma rivalidade acérrima também ela centenária. As razões dessa rivalidade prendem-se com questões de ordem religiosa, social e geográfica: os adeptos do Celtic são apelidados de “católicos”, ao passo que os do Rangers têm o epíteto de “protestantes”, obviamente com a conotação de credo entre as duas fações. Depois, há que ir à fundação: as origens do Celtic remontam a 1887, surgindo por vontade da humilde população irlandesa que tinha emigrado para a Escócia e que queria ter a sua expressão futebolística por oposição ao Rangers, fundado antes – e não surpreende, por isso, que as bancadas estejam frequentemente engalanadas com bandeiras da República da Irlanda, assim como faz sentido que o emblema seja um trevo.
Já o Rangers foi fundado por jovens da classe média-alta da cidade de filiação protestante e com ramificações anglicanas – daí que, por oposição ao Celtic, abundem as bandeiras do Reino Unido durante os jogos. Para se ter uma noção, basta dizer que está nos estatutos do clube não contratarem jogadores que, por baptizado, sejam católicos. A juntar a este caldeirão de diversidades, resta referir que os adeptos do Celtic residem na margem Leste do rio Clyde, ao passo que os do Rangers vivem na margem oposta. Aliás, asseguraram-me que não é nada conveniente adeptos e jogadores do Celtic irem para a área contrária, e vice-versa. As poucas excepções são relativas aos jogadores não-escoceses. Esses, aí, podem movimentar-se à-vontade.
Os jogos entre eles, apelidados de Old Firm, movimentam toda a cidade, seja no Celtic Park ou no Ibrox, onde as paixões e o fanatismo sobem aos píncaros. O que é espantoso, no meio de tudo isto, é que, sejam católicos ou protestantes, todos se unem quando o que está em causa é a selecção escocesa.

A fachada do hotel


A maior cidade escocesa apresentou-se, logo à chegada, coberta de chuva, como era previsível. Apanhámos um daqueles típicos táxis das ilhas britânicas e fomos para um hotel decrépito na down town, onde eu e o Nuno Galvão Correia tratámos de ir jantar a um restaurante tailandês onde sabíamos que Cadete iria lá estar, conforme combinado anteriormente. Mas não fomos só nós que estavam no repasto: havia ainda um jornalista português que também tinha acabado de fazer uma reportagem com o jogador, mas que estava de abalada, e mais três personagens.


- Meus caros, estes são os meus amigos, o Graham, o Victor e a Emilly.

Pois bem, o primeiro era o mais velho e um pouco reservado, o segundo era um fulano um pouco estranho, baixote, com um bigodinho ridículo e que passou quase todo o tempo a rir por tudo e por nada, e a rapariga era uma jovem bem-apessoada com ar irreverente.

No dia seguinte, já tínhamos o plano traçado: como o jogo seria apenas à noite, passámos o dia na companhia de Graham para fazermos um périplo pela cidade. Para variar, tudo o que vimos foi sob chuva, o que tornou a urbe ainda mais escura e cinzenta, refletido no aspecto austero das fachadas dos prédios que não eram lambidas pelo Sol há muitas horas. Sinceramente, Glasgow não nos estava propriamente a deslumbrar.

O cinzento abunda um pouco por toda a cidade
Estávamos abrigados no carro a trocar algumas impressões com o nosso “guia” de ocasião quando fomos abordados por um polícia. Ah, e tal, o que estão aqui a fazer, isto é um pouco suspeito, blá-blá, blá-blá.

O Graham empertigou-se, afastou a calma que era seu apanágio, e respondeu que nós éramos jornalistas portugueses e que ele estava a fazer uma visita guiada pelos locais mais emblemáticos da cidade. Pelo ar indignado que empregou, o polícia deixou-nos em paz. Mas o Graham ainda fez questão de desabafar:

- Stupid policeman, it seems he’s english…

Lançámos achas para a fogueira:

- You don’t like the english people, righ?

- Do you think so? In fact, we hate those bloody fucking bastards!

Acho que percebemos a ideia.

A entrada VIP do Celtic Park

O ponto alto do dia (ou da noite) foi no dia seguinte, pois íamos assistir ao jogo com Heart of Midlothian FC, ou simplesmente “Hearts”. O estádio estava repleto e havia alguma tensão, porque o clube de Edimburgo perfilha alguns dos ideais do Rangers, por oposição ao Hibernian FC, também da capital e de origens irlandesas, que grangeia simpatia para com o Celtic.

O Nuno Correia, antes do jogo, pediu algo a Cadete:

- Olha, eu estou atrás da baliza para onde atacas e depois mudo ao intervalo. Se marcares um golo, vem celebrar para o pé de mim, para eu te tirar uma “g’anda” foto, ok? Não te esqueças!

Vi o Nuno posicionar-se numa das balizas e eu fui para a bancada de imprensa, onde se fazia sentir um frio de rachar. Ao intervalo, o Celtic já ganhava por 2-0 e eu aproveitei esses 15 minutos de pausa para ir à sala de imprensa, pelo menos ali não fazia tanto frio. A agradável surpresa foi quando chegou um empregado com tigelas de caldo-verde quentinho que distribuiu por todos os jornalistas locais e que, a mim, soube-me pela vida!

O jogo, assinalado pela estreia de Paolo di Canio, saldou-se por um 3-0 final. Ah, e o Correia não chegou a tirar a tão almejada foto…

O interior do Celtic Park
Ao longo da semana, aconteceram alguns episódios engraçados, muitas vezes também com as presenças dos seus dois amigos Graham e o Victor. Em relação a este último, Cadete fez questão em lhe ensinar algumas expressões em português vernáculo que aqui me escuso a proferir. O sujeito patusco memorizou algumas delas e passou todo o tempo a repeti-las, estivesse onde estivesse. Sempre que acabava uma destas frases começava a rir-se alarvemente, visivelmente orgulhoso por falar português. As gargalhadas eram tão contagiantes que eu, o Nuno e o Cadete não conseguíamos parar de rir.

Houve um dia que Cadete perguntou se o queríamos acompanhar numa sessão fotográfica publicitária, se não me engano a uma marca de feijões enlatados. Fomos no carro dele até ao estúdio, ele equipou-se à Celtic e, vindo de outro lado, surgiu um fulano com a camisola do Rangers. Vim a saber, depois, que era alemão e que jogava pelo clube rival. Sendo Cadete português e o outro alemão, não havia motivos para rivalidades que lhes passavam completamente ao lado. O que não vale uma lata de feijões.

Uma vez saídos do estúdio, voltámos com Cadete a conduzir e, numa das artérias mais movimentadas de Glasgow, parámos num sinal vermelho. Os outros condutores, quando viram quem estava ao volante, saíram dos carros para o cumprimentar e pedir autógrafos. Tal como eles, também os peões que atravessavam a rua abeiraram-se da janela a solicitar autógrafos, fotografias e mais autógrafos. Cadete distribuiu-se em simpatias e eu deixei de contar o número de vezes que o semáforo mudou de luzes. Estivemos ali parados bastante tempo e isso serviu para a atestar a popularidade do jogador. Em Glasgow, Cadete era um ídolo, quase um deus.

A ideia foi do Nuno:

- Jorge, e estava aqui a pensar uma coisa... Que tal irmos a uma loja de kilts para eu te fotografar?

- Como assim? Queres ver-me de saias, é isso?

- Não, pá, é uma coisa séria, ia dar umas fotos engraçadas.

Cadete alinhou na ideia, e fomos a uma loja que exibia na montra uma quantidade assinalável de kilts. Quando entrámos, a empregada reconheceu-o e disse-lhe que, no fim, queria um autógrafo. Ele foi para a cabina de trocas e, quando voltou, eu e o Correia fizemos um esforço para conter o riso. Apareceu com uma camisa branca, suspensórios, meias brancas e um kilt axadrezado azul e preto. A empregada deu umas dobras na vestimenta para ele parece um highlander a sério e o Nuno fotografou-o de alto a baixo em vários ângulos e poses. E seguiu-se o diálogo entre eles:

- Jorge, isto não está a resultar…

- Não? Estou mal?

- Não é isso, é o kilt.

- O que tem o kilt?

- É azul, devia ser verde!

- Pois, faz sentido! 

Eu e o Nuno também achámos.

Voltou para dentro, surgiu desta feita com um kilt verde e preto e a empregada aprovou. Eu e o Nuno também.

 saída, não me contive:

- Jorge, posso tratar-te por Jorge McCadete?

Na última noite, para nos despedirmos da cidade, fomos sair à noite com Cadete, com o Graham, com o Victor e a Emilly até um bar com vídeo-clips a passar no ecrã gigante onde, a determinada altura, surgiu Jon Bon Jovi a cantar “Livin’On a Prayer”. A Emilly aproximou-se de mim e sussurrou-me:

- He´so gorgeus, it looks like Jorge, dont you think so? 

Não respondi e limitei-me a sorrir.

O frio e a chuva não invalidam a animação nocturna

Já a pé, a caminho do hotel, não deixei de ficar surpreendido quando nos cruzámos com miúdas com vestidos leves, decotados, minissaias, sandálias abertas e que, apesar da chuva inclemente, chapinhavam nas poças de água das ruas e só passavam de roxo para o tom natural dentro de espaços fechados e aquecidos. Para nos abrigarmos daquela irritante chuva miudinha, eu e o Nuno Correia fomos a um ou dois pubs, ouvindo com regularidade a cantiga dedicada pelos adeptos a Cadete, berrada a plenos pulmões pelos fans mais empedernidos e com as faces rosadas da embriaguez: 

“There´s only one Jorge Cadete,

He puts the ball in the nety

He´s portuguese, he scores with ease

Walking in Jorge’s wondeland”


A ría baixa de Vigo é juncada por mariscadores

Passados algo como três anos, voltei a reencontrar Jorge Cadete, agora numa outra cidade e em outro clube. Com efeito, após duas temporadas de sucessos em Glasgow, onde era adorado, e acabou por apostar no Real Club Celta e na cidade de Vigo, trocando um clube reconhecido por um outro de qualidade mediana e que só muito dificilmente lutaria por títulos. Como ele esteve sozinho em Glasgow, talvez a proximidade com Portugal o tenha seduzido, sinceramente não sei. Foi para aquilatar todas estas opções que voltou a ser equacionada uma nova entrevista, novamente com Nuno Correia como parceiro. 

Quando chegámos, estacionámos o carro perto de um restaurante para almoçar, e estávamos entretidos com uns calamares quando alguém entrou no estabelecimento e se sentou ao nosso lado.

- Então, tudo bem?

Parece ser sina minha encontrar José Mourinho nos sítios mais improváveis.

O tempo passado com o futebolista foi curto, muito menos comparativamente quando estivemos na Escócia, não mais que dois ou três dias. Por esse factor, limitámo-nos a ir ao estádio Balaídos sem qualquer partida de futebol na agenda, a dar uma espiada na ría de Vigo e, obviamente, a entrevistar o jogador, que, na cidade galega, não teve o mesmo êxito como tivera no Celtic.

Estádio Balaídos
Houve algo, talvez, que o fizesse recordar os bons tempos escoceses – e não tem nada a ver com as condições meteorológicas onde imperava uma tremenda rivalidade entre o Rangers e o Celtic. Não é que seja igual nem nada que se pareça. É que, na Galiza, também há grande rivalidade entre os dois clubes mais representativos da província, o Celta e o Deportivo La Coruña, e os adeptos não se podem ver uns aos outros. Num café perto do estádio, contaram-nos que, se um automóvel com a matrícula de Vigo fosse à Corunha, saía de lá com mossas na chapa e com os vidros paridos, e o mesmo se aplicava em situação contrária

Por acaso, tive a felicidade de, passados uns anos, ter assistido a um Celta-Deportivo para a Taça do Rei e só então me apercebi do clima de quase ódio entre os adeptos de cada clube, ao ponto de também se estender aos jogadores em campo –  houve duas expulsões para cada lado.

Voltámos para Portugal sem grandes certezas em relação à carreira de Cadete, mas regressámos com uma das melhores recordações – uma camisola do Celta comprada na loja do clube.