A minha segunda grande
reportagem pela “VM” foi mediante um convite endereçado pela Oficina de Turismo
de Espanha, localizada em Lisboa. Na altura, os maiores destinos de férias nas
Baleares, vendidas pelas agências de turismo, eram Maiorca e Ibiza. Por isso
mesmo, a ideia era promover uma ilha que não fazia propriamente parte da maior
parte das conjecturas, era um destino praticamente desconhecido e não fazia
parte dos programas turísticos.
Mais uma vez, fui acompanhado pelo Luís Catarino, e o curto voo, que teve escala em Madrid, decorreu tranquilamente até se começar a sobrevoar a ilha, e, ao olhar pela escotilha, fiquei agradavelmente surpreendido com o que estava a ver “lá em baixo”: um mar azul-turquesa que rodeava todo o litoral – não fosse saber para onde ia, poderia ficar sugestionado de que o destino era algures nas Caraíbas, ou mesmo, ainda que improvável pelo tempo de voo, num qualquer atol do Pacífico.
Mais uma vez, fui acompanhado pelo Luís Catarino, e o curto voo, que teve escala em Madrid, decorreu tranquilamente até se começar a sobrevoar a ilha, e, ao olhar pela escotilha, fiquei agradavelmente surpreendido com o que estava a ver “lá em baixo”: um mar azul-turquesa que rodeava todo o litoral – não fosse saber para onde ia, poderia ficar sugestionado de que o destino era algures nas Caraíbas, ou mesmo, ainda que improvável pelo tempo de voo, num qualquer atol do Pacífico.
| Maó e o seu porto |
Apontei ao empregado um
dos nomes da lista e perguntei se era peixe.
- Mas o menos… - foi a resposta que recebi.
Ora mais ou menos não é nada e, mesmo titubeante, decidi-me pelo cap roig.
Só depois deslindei a questão: o cap roig é meio peixe, meio crustáceo, uma espécie de mistura entre um carapau frito e um caranguejo e, sinceramente, não tirei grande proveito, tal a quantidade de espinhos e casca grossa – valeu pela cerveja artesanal “Sant Climent”, nada de “Estrella Galicia”, “San Miguel”, “Mahou” e afins.
A partir aqui, iniciou-se a exploração da ilha. O foco da reportagem apontava para as calas, mas decidimos remetê-las para mais tarde. Seguindo o conselho da guia, começámos por visitar “Binibeca Vell”, o exemplo perfeito de como era uma comunidade piscatória de outros tempos, totalmente caiada de branco e ruas estreitas quase labirínticas e que, na altura, era possível alugar algumas casas com propósitos turísticos.
- Mas o menos… - foi a resposta que recebi.
Ora mais ou menos não é nada e, mesmo titubeante, decidi-me pelo cap roig.
Só depois deslindei a questão: o cap roig é meio peixe, meio crustáceo, uma espécie de mistura entre um carapau frito e um caranguejo e, sinceramente, não tirei grande proveito, tal a quantidade de espinhos e casca grossa – valeu pela cerveja artesanal “Sant Climent”, nada de “Estrella Galicia”, “San Miguel”, “Mahou” e afins.
A partir aqui, iniciou-se a exploração da ilha. O foco da reportagem apontava para as calas, mas decidimos remetê-las para mais tarde. Seguindo o conselho da guia, começámos por visitar “Binibeca Vell”, o exemplo perfeito de como era uma comunidade piscatória de outros tempos, totalmente caiada de branco e ruas estreitas quase labirínticas e que, na altura, era possível alugar algumas casas com propósitos turísticos.
| Binibeca Vell |
- Sabem, daqui, em dias de boa visibilidade, conseguem-se observar os contornos de Maiorca.
Não era, infelizmente, o caso. Mas ainda nos deu outra surpreendente informação:
- Muitos dos visitantes são maiorquinos, gostam de vir a Menorca para recordar como era Maiorca antes do fluxo turístico.
Pensámos logo que, se a reportagem tivesse o impacto esperado, Menorca poderia, nos anos seguintes, tomar o mesmo rumo da sua irmã maior.
| S'albufera des Grau |
Mais uma vez, a guia foi boa conselheira:
- A especialidade de Fornells é a langosta, estão interessados?
Ficámos a salivar com a sugestão.
Ela entrou no restaurante e, pouco depois, chegou junto a nós.
- Bom, isto vai ter de demorar um pouco. O restaurante está cheio e a preparação da vossa refeição leva um certo tempo… Preferem ir almoçar a outro lado?
Voltou a entrar no restaurante e voltou a sair.
- Disseram-me para voltarmos dentro de hora e meia e que então estará tudo pronto para nós!
Para matar o tempo, fomos passear pelo caminho marítimo em redor da marina, pela baía observando os barquinhos à vela e ainda a uma pequena capela. O sol inundava todo o cenário, era bonito sim senhor, mas a fome apertava e de que maneira…
Hora e meia depois, entrámos esfaimados no restaurante “S’ancora” – finalmente!
Afinal,
a langosta não era somente uma lagosta, a especialidade era mesmo,
melhor ainda, a caldereta de langosta. Veio a terrina fumegante, o empregado tirou a
tampa e, quando me preparava para me servir, fui tolhido pelo funcionário.
- É melhor pôr isto…
Surpreendido, vi-o colocar-me um avental atado pela cintura e pendurado no pescoço – e senti-me ridículo. Mas tal sensação rapidamente se desvaneceu, uma vez que a bata, imaculadamente branca, impediu que ficasse a escorrer molho para a roupa, com a ânsia de arrancar tenazes à martelada. A caldereta estava suculenta e a barriga, de tão cheia, impelia a uma sesta retemperadora. Mas não, havia que retomar o caminho de volta para Maó.
- É melhor pôr isto…
Surpreendido, vi-o colocar-me um avental atado pela cintura e pendurado no pescoço – e senti-me ridículo. Mas tal sensação rapidamente se desvaneceu, uma vez que a bata, imaculadamente branca, impediu que ficasse a escorrer molho para a roupa, com a ânsia de arrancar tenazes à martelada. A caldereta estava suculenta e a barriga, de tão cheia, impelia a uma sesta retemperadora. Mas não, havia que retomar o caminho de volta para Maó.
| Fornells |
Deixámos Maó e fomos para Ciutadella, a segunda maior cidade. Se a capital vinga por um certo cosmopolitismo, com bancos e serviços, Ciutadella distingue-se pelo charme e elegância. Mas já lá vamos.
| Centro histórico de Ciutadella |
Ciutadella, tal como Maó, possui no porto o seu chamariz, mas, pelo menos pareceu-nos, mais aconchegante. A cidade, que já foi capital, possuiu um centro histórico cativante, nomeadamente na zona de “S’es Voltes”, além de praças e ruelas que demonstram o seu passado umbilicalmente ligado ao mar.
Mas Ciutadella e sua área envolvente tinha muito mais para oferecer, com as calas no topo das prioridades – e que praias! Turqueta, Macarella, Macallereta, Mitjana… Pequenos nichos de areia branca entre rochedos banhados por águas cristalinas e com todas as tonalidades que os azuis podem ter.
| Cala Turqueta |
| Cala Es Talaier |
Ora, pensou o Luís, aquilo bem que poderia ser uma hipótese de capa. Mas faltava algo: um elemento feminino, que, por acaso, até estava ali à mão de semear. O Luís explicou-lhes o que pretendia, mas só uma mostrou disponibilidade – a roliça. Neste entretém, empoleirei-me em cima de uma rocha para apreciar devidamente aquela improvisada sessão fotográfica. O fotógrafo posicionou-se de máquina em riste, e a italiana cheiinha atirou-se de cabeça â água e, quando voltou à tona, soltou-se a parte de cima do biquíni, deixando-a de seios à mostra. O Luís começou a rir-se e ela rapidamente puxou para cima a parte do biquíni que estava em falta. A cena repetiu-se várias vezes, e sempre com o mesmo resultado, até que a miúda desistiu. Mas como ainda havia a outra italiana, o Luís sugeriu-lhe que fosse ela a seguir. Dito e feito: mergulhou, veio à tona intacta e começou a boiar. Meia dúzia de fotos depois, deu-se por encerrada a sessão. Uma destas fotos acabou, mesmo, por ser a imagem de capa da edição! Voltámos ao barco e, no regresso ao porto, a gordinha não parava de rir – e nós também.
Uma vez que já tínhamos estado in-loco nas calas, o Catarino teve a ideia de fotografá-las de cima e, como sabíamos que havia um aeródromo em Sant Lluis, fomos até lá inquirir a possibilidade. Falámos com um piloto, negociámos o preço, saltámos para dentro da avioneta e, minutos depois, estávamos a sobrevoar aqueles paraísos aquáticos. Para mim, foi um regalo, para o Catarino, nem por isso: fotografou de todas as formas possíveis, experimentou diversos ângulos, mas, como os vidros da avioneta eram foscos e estavam cheios de riscos, não se aproveitou nem uma. Resumindo, lá teria de ser a gorda a mais forte hipótese de capa…
| Cova d'Enxoroi |
Continuámos em direcção a Ciutadella quando vimos uma indicação à beira da estrada: Cova d’Enxoroi. Abeirámo-nos de falésia, olhámos em frente… e estancámos de surpresa: era uma gruta natural incrustada na rocha, a meio de uma falésia que caia a pique para o mar, e com pessoas lá dentro. Para aceder, havia que caminhar por um trilho talhado na rocha pendurado sobre o mar, sem corrimões ou baias de segurança – para baixo, era o abismo, mas acredito que, nos dias de hoje, as normas de segurança sejam mais eficientes.
Quando entrámos, fomos em passos acelerados para a abertura que dava para o mar e a
visão era redentora a partir do precipício: a altura, o mar lá em baixo a brilhar e um
pôr-do-Sol grandioso. No interior havia um bar e, à noite, o espaço servia de
discoteca, mas nem um nem outro nos puxou para ficar lá mais tempo, uma vez
que, antes do regresso a Portugal, ainda havia outros locais que queríamos
conhecer.
Uma delas são as parets seques, datadas da Idade do Bronze,
que são muros de pedras perfeitamente encaixadas que circundam os chamados Talayots,
edificações que tanto podiam servir como posto de vigilância ou monumento
funerário. Percorremos o percurso, surpreendemo-nos com a perfeição das
construções, mas tivemos de sair porque o recinto estava quase a fechar. No
entanto, ainda queríamos conhecer a Taula de Torralba, uma edificação
megalítica da civilização “taulaiótica”. O problema era que tínhamos voo para
Lisboa no dia seguinte, bem cedinho.
| Parets Seques |
| Taula de Torralba |
- Cabrón! hijo de puta!
Fiquei incomodado, mas nem me dei ao trabalho de lhe explicar porque estávamos ali. Foi esta, aliás, a última memória, mesmo através de um insulto, que me ficou de Menorca. Dois meses depois, quando a revista saiu para as bancas, a reportagem causou tanto impacto que, a partir de então, as agências de viagem começaram a incluir Menorca nos seus pacotes turísticos – feliz ou infelizmente.
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