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14 março 2026

Menorca revelada

A minha segunda grande reportagem pela “VM” foi mediante um convite endereçado pela Oficina de Turismo de Espanha, localizada em Lisboa. Na altura, os maiores destinos de férias nas Baleares, vendidas pelas agências de turismo, eram Maiorca e Ibiza. Por isso mesmo, a ideia era promover uma ilha que não fazia propriamente parte da maior parte das conjecturas, era um destino praticamente desconhecido e não fazia parte dos programas turísticos.
Mais uma vez, fui acompanhado pelo Luís Catarino, e o curto voo, que teve escala em Madrid, decorreu tranquilamente até se começar a sobrevoar a ilha, e, ao olhar pela escotilha, fiquei agradavelmente surpreendido com o que estava a ver “lá em baixo”: um mar azul-turquesa que rodeava todo o litoral – não fosse saber para onde ia, poderia ficar sugestionado de que o destino era algures nas Caraíbas, ou mesmo, ainda que improvável pelo tempo de voo, num qualquer atol do Pacífico.
Maó e o seu porto
À nossa espera no aeroporto, além do automóvel previamente alugado, encontrava-se a guia que nos iria acompanhar durante alguns dos sete dias de estadia. Como a ilha era mais pequena do que imaginava, rapidamente chegámos ao hotel em Maó (Mahón, em castelhano), onde deixámos as malas e sairmos para a rua com a ideia de explorar a capital menorquina. Na realidade, a cidade não é propriamente de grandes dimensões, quase tudo gravita em redor do seu porto de águas profundas e, como nos contornos da marina o que não faltavam eram bares e restaurantes, escolhemos um para almoçar. Veio o menu em catalão, em vão tentámos decifrá-lo, e ficámos na dúvida. Para simplificar, o Luís escolheu calamares, mas eu mantive-me irredutível, queria provar algo local, como sempre fiz questão.

Apontei ao empregado um dos nomes da lista e perguntei se era peixe.
- Mas o menos… - foi a resposta que recebi.
Ora mais ou menos não é nada e, mesmo titubeante, decidi-me pelo cap roig.
Só depois deslindei a questão: o cap roig é meio peixe, meio crustáceo, uma espécie de mistura entre um carapau frito e um caranguejo e, sinceramente, não tirei grande proveito, tal a quantidade de espinhos e casca grossa – valeu pela cerveja artesanal “Sant Climent”, nada de “Estrella Galicia”, “San Miguel”, “Mahou” e afins.
A partir aqui, iniciou-se a exploração da ilha. O foco da reportagem apontava para as calas, mas decidimos remetê-las para mais tarde. Seguindo o conselho da guia, começámos por visitar “Binibeca Vell”, o exemplo perfeito de como era uma comunidade piscatória de outros tempos, totalmente caiada de branco e ruas estreitas quase labirínticas e que, na altura, era possível alugar algumas casas com propósitos turísticos.

Binibeca Vell
De seguida, percorremos um troço da costa Norte, e fomos até à “S’albufera des Grau”, a mais importante reserva da biosfera de Menorca, um verdadeiro oásis de quietude e contemplação, seguimos para o farol Favàritx, erguido numa paisagem lunar e à beira de íngremes falésias e, num ápice, chegámos a Cap Cavalleria, um promontório rochoso mar adentro. A guia comentou:
- Sabem, daqui, em dias de boa visibilidade, conseguem-se observar os contornos de Maiorca.
Não era, infelizmente, o caso. Mas ainda nos deu outra surpreendente informação:
- Muitos dos visitantes são maiorquinos, gostam de vir a Menorca para recordar como era Maiorca antes do fluxo turístico.
Pensámos logo que, se a reportagem tivesse o impacto esperado, Menorca poderia, nos anos seguintes, tomar o mesmo rumo da sua irmã maior.

S'albufera des Grau
Para rematar a manhã, decidimos fazer uma pausa para almoçar em Fornells, uma localidade essencialmente piscatória. A razão da demanda de visitantes, particularmente aos fins-de-semana, é passar umas horas à mesa dos diversos restaurantes que ali se encontram.
Mais uma vez, a guia foi boa conselheira:
- A especialidade de Fornells é a langosta, estão interessados?
Ficámos a salivar com a sugestão.
Ela entrou no restaurante e, pouco depois, chegou junto a nós.
- Bom, isto vai ter de demorar um pouco. O restaurante está cheio e a preparação da vossa refeição leva um certo tempo…  Preferem ir almoçar a outro lado?
Quer dizer, depois de nos ter aliciado com a langosta, não era agora que íamos abdicar da iguaria.
Voltou a entrar no restaurante e voltou a sair.
- Disseram-me para voltarmos dentro de hora e meia e que então estará tudo pronto para nós!
Para matar o tempo, fomos passear pelo caminho marítimo em redor da marina, pela baía observando os barquinhos à vela e ainda a uma pequena capela. O sol inundava todo o cenário, era bonito sim senhor, mas a fome apertava e de que maneira…
Hora e meia depois, entrámos esfaimados no restaurante “S’ancora” – finalmente!

Afinal, a langosta não era somente uma lagosta, a especialidade era mesmo, melhor ainda, a caldereta de langosta.  Veio a terrina fumegante, o empregado tirou a tampa e, quando me preparava para me servir, fui tolhido pelo funcionário.
- É melhor pôr isto…
Surpreendido, vi-o colocar-me um avental atado pela cintura e pendurado no pescoço – e senti-me ridículo. Mas tal sensação rapidamente se desvaneceu, uma vez que a bata, imaculadamente branca, impediu que ficasse a escorrer molho para a roupa, com a ânsia de arrancar tenazes à martelada. A caldereta estava suculenta e a barriga, de tão cheia, impelia a uma sesta retemperadora. Mas não, havia que retomar o caminho de volta para Maó.

Fornells
No dia seguinte, decidimos ir em busca das calas. Diga-se, de passagem, que a maior parte destas praias, pelo menos quando lá fomos, eram praticamente inacessíveis de automóvel, restando fazer-se o percurso a pé ou de barco. Tivemos o vislumbre da cala Pregonda, que nos abriu o apetite para o dia seguinte, onde iríamos à procura de calas mais a sério, localizadas essencialmente na costa Oeste
Deixámos Maó e fomos para Ciutadella, a segunda maior cidade. Se a capital vinga por um certo cosmopolitismo, com bancos e serviços, Ciutadella distingue-se pelo charme e elegância. Mas já lá vamos.

Centro histórico de Ciutadella
A ligar as duas urbes, há uma estrada que atravessa a ilha de ponta a ponta, como uma coluna vertebral de menos de 50 Km, passando por diversas localidades interiores: Alaior, onde pontifica a fábrica de gelados “Menorquina“, Es Mercadal, onde fizemos uma paragem para jantar no restaurante “C’an Olga”, onde experimentámos um saborosíssimo arroz de la tierra, seguindo para Ferreries, que ladeia o Monte Toro, o mais alto ponto da ilha.
Ciutadella, tal como Maó, possui no porto o seu chamariz, mas, pelo menos pareceu-nos, mais aconchegante. A cidade, que já foi capital, possuiu um centro histórico cativante, nomeadamente na zona de “S’es Voltes”, além de praças e ruelas que demonstram o seu passado umbilicalmente ligado ao mar.
Mas Ciutadella e sua área envolvente tinha muito mais para oferecer, com as calas no topo das prioridades – e que praias! Turqueta, Macarella, Macallereta, Mitjana… Pequenos nichos de areia branca entre rochedos banhados por águas cristalinas e com todas as tonalidades que os azuis podem ter.

Cala Macarelleta


Cala Turqueta
No regresso a Ciutadella, falaram-nos num passeio de barco que permitia demandar as calas menos acessíveis.  Num guichet do porto fizemos o agendamento para o dia seguinte, bem cedinho. Com efeito, um pouco antes das 09h0, entrámos no barco que nos estava destinado, com a companhia de duas italianas, uma delas roliça e a outra um pouco mais elegante. Enquanto sulcávamos o mar, fomos assistindo ao desfile de praias de sonho e, com naturalidade, fomos comentando as paisagens com as outras passageiras, até que o “capitão” da embarcação nos disse que havia ali perto uma cala muito bonita, a Es Talaier, mas à qual só se podia aceder a pé.

Cala Es Talaier
Nós e as italianas saímos do barco, andámos um pouco a pé por um trilho tosco e, de chofre, ficámos estasiados perante a visão: a praia era linda, de água azul-turquesa, com um nicho de areia entre as formações rochosas e era tão translúcida que mais parecia uma piscina artificial.
Ora, pensou o Luís, aquilo bem que poderia ser uma hipótese de capa. Mas faltava algo: um elemento feminino, que, por acaso, até estava ali à mão de semear. O Luís explicou-lhes o que pretendia, mas só uma mostrou disponibilidade – a roliça. Neste entretém, empoleirei-me em cima de uma rocha para apreciar devidamente aquela improvisada sessão fotográfica. O fotógrafo posicionou-se de máquina em riste, e a italiana cheiinha atirou-se de cabeça â água e, quando voltou à tona, soltou-se a parte de cima do biquíni, deixando-a de seios à mostra. O Luís começou a rir-se e ela rapidamente puxou para cima a parte do biquíni que estava em falta. A cena repetiu-se várias vezes, e sempre com o mesmo resultado, até que a miúda desistiu. Mas como ainda havia a outra italiana, o Luís sugeriu-lhe que fosse ela a seguir. Dito e feito: mergulhou, veio à tona intacta e começou a boiar. Meia dúzia de fotos depois, deu-se por encerrada a sessão. Uma destas fotos acabou, mesmo, por ser a imagem de capa da edição! Voltámos ao barco e, no regresso ao porto, a gordinha não parava de rir – e nós também.
Uma vez que já tínhamos estado in-loco nas calas, o Catarino teve a ideia de fotografá-las de cima e, como sabíamos que havia um aeródromo em Sant Lluis, fomos até lá inquirir a possibilidade. Falámos com um piloto, negociámos o preço, saltámos para dentro da avioneta e, minutos depois, estávamos a sobrevoar aqueles paraísos aquáticos. Para mim, foi um regalo, para o Catarino, nem por isso: fotografou de todas as formas possíveis, experimentou diversos ângulos, mas, como os vidros da avioneta eram foscos e estavam cheios de riscos, não se aproveitou nem uma. Resumindo, lá teria de ser a gorda a mais forte hipótese de capa…

Cova d'Enxoroi
Conhecidas as costas Leste, Norte e Oeste, decidimos explorar a parte Sul da ilha. Esta área era um pouco mais turística, com alguns empreendimentos incipientes sobretudo em frente à praia de Son Bou, a mais popular e extensa de Menorca. Para nós, que tínhamos andado por calas encantatórias, Son Bou não nos soube a nada.
Continuámos em direcção a Ciutadella quando vimos uma indicação à beira da estrada: Cova d’Enxoroi. Abeirámo-nos de falésia, olhámos em frente… e estancámos de surpresa: era uma gruta natural incrustada na rocha, a meio de uma falésia que caia a pique para o mar, e com pessoas lá dentro. Para aceder, havia que caminhar por um trilho talhado na rocha pendurado sobre o mar, sem corrimões ou baias de segurança – para baixo, era o abismo, mas acredito que, nos dias de hoje, as normas de segurança sejam mais eficientes.
Quando entrámos, fomos em passos acelerados para a abertura que dava para o mar e a visão era redentora a partir do precipício: a altura, o mar lá em baixo a brilhar e um pôr-do-Sol grandioso. No interior havia um bar e, à noite, o espaço servia de discoteca, mas nem um nem outro nos puxou para ficar lá mais tempo, uma vez que, antes do regresso a Portugal, ainda havia outros locais que queríamos conhecer. 
Uma delas são as parets seques, datadas da Idade do Bronze, que são muros de pedras perfeitamente encaixadas que circundam os chamados Talayots, edificações que tanto podiam servir como posto de vigilância ou monumento funerário. Percorremos o percurso, surpreendemo-nos com a perfeição das construções, mas tivemos de sair porque o recinto estava quase a fechar. No entanto, ainda queríamos conhecer a Taula de Torralba, uma edificação megalítica da civilização “taulaiótica”. O problema era que tínhamos voo para Lisboa no dia seguinte, bem cedinho.

Parets Seques
Contudo, como não queríamos partir sem antes registar este momento, pusemos o despertador a horas inapropriadas com o intuito de irmos até à taula. Quando chegámos, estava o Sol a nascer, apercebemo-nos que era tão cedo que aquilo ainda não tinha aberto a porta de entrada, mas, como querer é poder, saltámos o muro e entrámos lá para dentro. Fotografou-se o monumento em forma de T e, quando nos aprestávamos para sair, apareceu um sujeito, possivelmente o guarda do parque, visivelmente irritado por estarmos lá dentro.

Taula de Torralba

- Cabrón! hijo de puta!
Fiquei incomodado, mas nem me dei ao trabalho de lhe explicar porque estávamos ali. Foi esta, aliás, a última memória, mesmo através de um insulto, que me ficou de Menorca. Dois meses depois, quando a revista saiu para as bancas, a reportagem causou tanto impacto que, a partir de então, as agências de viagem começaram a incluir Menorca nos seus pacotes turísticos – feliz ou infelizmente.