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21 dezembro 2025

De Glasgow a Vigo com Jorge Cadete

Ainda na senda dos futebolistas portugueses que jogaram em ligas estrangeiras, teríamos de ir à Escócia para fazer uma reportagem com Jorge Cadete, que eu já conhecia desde os tempos do jornal “Sporting”, e que, depois de sair de Alvalade, onde tinha o estatuo de “capitão” de equipa, rumou para o Celtic FC, um dos “grandes” clubes escoceses, a par do Rangers FC e que, curiosamente, continuou a jogar com a camisola listada horizontalmente de verde e branco – pelo menos, não foi por aí que poderia sentir-se desambientado. Certo, certo, é que o jogador gerou uma enorme onda de popularidade e rapidamente caiu no goto dos exigentes supporters do clube, que adoravam o seu espírito “guerreiro” em campo e pelos golos em catadupa que ia marcando.
Antes do mais, há que fazer um apanhado geral do futebol escocês, que tem diversas particularidades. Há dois clubes que dominam a centenária liga – com uma ou outra intromissão do Aberdeen FC de Sir Alex Ferguson – e que contemplam uma rivalidade acérrima também ela centenária. As razões dessa rivalidade prendem-se com questões de ordem religiosa, social e geográfica: os adeptos do Celtic são apelidados de “católicos”, ao passo que os do Rangers têm o epíteto de “protestantes”, obviamente com a conotação de credo entre as duas fações. Depois, há que ir à fundação: as origens do Celtic remontam a 1887, surgindo por vontade da humilde população irlandesa que tinha emigrado para a Escócia e que queria ter a sua expressão futebolística por oposição ao Rangers, fundado antes – e não surpreende, por isso, que as bancadas estejam frequentemente engalanadas com bandeiras da República da Irlanda, assim como faz sentido que o emblema seja um trevo.
Já o Rangers foi fundado por jovens da classe média-alta da cidade de filiação protestante e com ramificações anglicanas – daí que, por oposição ao Celtic, abundem as bandeiras do Reino Unido durante os jogos. Para se ter uma noção, basta dizer que está nos estatutos do clube não contratarem jogadores que, por baptizado, sejam católicos. A juntar a este caldeirão de diversidades, resta referir que os adeptos do Celtic residem na margem Leste do rio Clyde, ao passo que os do Rangers vivem na margem oposta. Aliás, asseguraram-me que não é nada conveniente adeptos e jogadores do Celtic irem para a área contrária, e vice-versa. As poucas excepções são relativas aos jogadores não-escoceses. Esses, aí, podem movimentar-se à-vontade.
Os jogos entre eles, apelidados de Old Firm, movimentam toda a cidade, seja no Celtic Park ou no Ibrox, onde as paixões e o fanatismo sobem aos píncaros. O que é espantoso, no meio de tudo isto, é que, sejam católicos ou protestantes, todos se unem quando o que está em causa é a selecção escocesa.

A fachada do hotel


A maior cidade escocesa apresentou-se, logo à chegada, coberta de chuva, como era previsível. Apanhámos um daqueles típicos táxis das ilhas britânicas e fomos para um hotel decrépito na down town, onde eu e o Nuno Galvão Correia tratámos de ir jantar a um restaurante tailandês onde sabíamos que Cadete iria lá estar, conforme combinado anteriormente. Mas não fomos só nós que estavam no repasto: havia ainda um jornalista português que também tinha acabado de fazer uma reportagem com o jogador, mas que estava de abalada, e mais três personagens.


- Meus caros, estes são os meus amigos, o Graham, o Victor e a Emilly.

Pois bem, o primeiro era o mais velho e um pouco reservado, o segundo era um fulano um pouco estranho, baixote, com um bigodinho ridículo e que passou quase todo o tempo a rir por tudo e por nada, e a rapariga era uma jovem bem-apessoada com ar irreverente.

No dia seguinte, já tínhamos o plano traçado: como o jogo seria apenas à noite, passámos o dia na companhia de Graham para fazermos um périplo pela cidade. Para variar, tudo o que vimos foi sob chuva, o que tornou a urbe ainda mais escura e cinzenta, refletido no aspecto austero das fachadas dos prédios que não eram lambidas pelo Sol há muitas horas. Sinceramente, Glasgow não nos estava propriamente a deslumbrar.

O cinzento abunda um pouco por toda a cidade
Estávamos abrigados no carro a trocar algumas impressões com o nosso “guia” de ocasião quando fomos abordados por um polícia. Ah, e tal, o que estão aqui a fazer, isto é um pouco suspeito, blá-blá, blá-blá.

O Graham empertigou-se, afastou a calma que era seu apanágio, e respondeu que nós éramos jornalistas portugueses e que ele estava a fazer uma visita guiada pelos locais mais emblemáticos da cidade. Pelo ar indignado que empregou, o polícia deixou-nos em paz. Mas o Graham ainda fez questão de desabafar:

- Stupid policeman, it seems he’s english…

Lançámos achas para a fogueira:

- You don’t like the english people, righ?

- Do you think so? In fact, we hate those bloody fucking bastards!

Acho que percebemos a ideia.

A entrada VIP do Celtic Park

O ponto alto do dia (ou da noite) foi no dia seguinte, pois íamos assistir ao jogo com Heart of Midlothian FC, ou simplesmente “Hearts”. O estádio estava repleto e havia alguma tensão, porque o clube de Edimburgo perfilha alguns dos ideais do Rangers, por oposição ao Hibernian FC, também da capital e de origens irlandesas, que grangeia simpatia para com o Celtic.

O Nuno Correia, antes do jogo, pediu algo a Cadete:

- Olha, eu estou atrás da baliza para onde atacas e depois mudo ao intervalo. Se marcares um golo, vem celebrar para o pé de mim, para eu te tirar uma “g’anda” foto, ok? Não te esqueças!

Vi o Nuno posicionar-se numa das balizas e eu fui para a bancada de imprensa, onde se fazia sentir um frio de rachar. Ao intervalo, o Celtic já ganhava por 2-0 e eu aproveitei esses 15 minutos de pausa para ir à sala de imprensa, pelo menos ali não fazia tanto frio. A agradável surpresa foi quando chegou um empregado com tigelas de caldo-verde quentinho que distribuiu por todos os jornalistas locais e que, a mim, soube-me pela vida!

O jogo, assinalado pela estreia de Paolo di Canio, saldou-se por um 3-0 final. Ah, e o Correia não chegou a tirar a tão almejada foto…

O interior do Celtic Park
Ao longo da semana, aconteceram alguns episódios engraçados, muitas vezes também com as presenças dos seus dois amigos Graham e o Victor. Em relação a este último, Cadete fez questão em lhe ensinar algumas expressões em português vernáculo que aqui me escuso a proferir. O sujeito patusco memorizou algumas delas e passou todo o tempo a repeti-las, estivesse onde estivesse. Sempre que acabava uma destas frases começava a rir-se alarvemente, visivelmente orgulhoso por falar português. As gargalhadas eram tão contagiantes que eu, o Nuno e o Cadete não conseguíamos parar de rir.

Houve um dia que Cadete perguntou se o queríamos acompanhar numa sessão fotográfica publicitária, se não me engano a uma marca de feijões enlatados. Fomos no carro dele até ao estúdio, ele equipou-se à Celtic e, vindo de outro lado, surgiu um fulano com a camisola do Rangers. Vim a saber, depois, que era alemão e que jogava pelo clube rival. Sendo Cadete português e o outro alemão, não havia motivos para rivalidades que lhes passavam completamente ao lado. O que não vale uma lata de feijões.

Uma vez saídos do estúdio, voltámos com Cadete a conduzir e, numa das artérias mais movimentadas de Glasgow, parámos num sinal vermelho. Os outros condutores, quando viram quem estava ao volante, saíram dos carros para o cumprimentar e pedir autógrafos. Tal como eles, também os peões que atravessavam a rua abeiraram-se da janela a solicitar autógrafos, fotografias e mais autógrafos. Cadete distribuiu-se em simpatias e eu deixei de contar o número de vezes que o semáforo mudou de luzes. Estivemos ali parados bastante tempo e isso serviu para a atestar a popularidade do jogador. Em Glasgow, Cadete era um ídolo, quase um deus.

A ideia foi do Nuno:

- Jorge, e estava aqui a pensar uma coisa... Que tal irmos a uma loja de kilts para eu te fotografar?

- Como assim? Queres ver-me de saias, é isso?

- Não, pá, é uma coisa séria, ia dar umas fotos engraçadas.

Cadete alinhou na ideia, e fomos a uma loja que exibia na montra uma quantidade assinalável de kilts. Quando entrámos, a empregada reconheceu-o e disse-lhe que, no fim, queria um autógrafo. Ele foi para a cabina de trocas e, quando voltou, eu e o Correia fizemos um esforço para conter o riso. Apareceu com uma camisa branca, suspensórios, meias brancas e um kilt axadrezado azul e preto. A empregada deu umas dobras na vestimenta para ele parece um highlander a sério e o Nuno fotografou-o de alto a baixo em vários ângulos e poses. E seguiu-se o diálogo entre eles:

- Jorge, isto não está a resultar…

- Não? Estou mal?

- Não é isso, é o kilt.

- O que tem o kilt?

- É azul, devia ser verde!

- Pois, faz sentido! 

Eu e o Nuno também achámos.

Voltou para dentro, surgiu desta feita com um kilt verde e preto e a empregada aprovou. Eu e o Nuno também.

 saída, não me contive:

- Jorge, posso tratar-te por Jorge McCadete?

Na última noite, para nos despedirmos da cidade, fomos sair à noite com Cadete, com o Graham, com o Victor e a Emilly até um bar com vídeo-clips a passar no ecrã gigante onde, a determinada altura, surgiu Jon Bon Jovi a cantar “Livin’On a Prayer”. A Emilly aproximou-se de mim e sussurrou-me:

- He´so gorgeus, it looks like Jorge, dont you think so? 

Não respondi e limitei-me a sorrir.

O frio e a chuva não invalidam a animação nocturna

Já a pé, a caminho do hotel, não deixei de ficar surpreendido quando nos cruzámos com miúdas com vestidos leves, decotados, minissaias, sandálias abertas e que, apesar da chuva inclemente, chapinhavam nas poças de água das ruas e só passavam de roxo para o tom natural dentro de espaços fechados e aquecidos. Para nos abrigarmos daquela irritante chuva miudinha, eu e o Nuno Correia fomos a um ou dois pubs, ouvindo com regularidade a cantiga dedicada pelos adeptos a Cadete, berrada a plenos pulmões pelos fans mais empedernidos e com as faces rosadas da embriaguez: 

“There´s only one Jorge Cadete,

He puts the ball in the nety

He´s portuguese, he scores with ease

Walking in Jorge’s wondeland”


A ría baixa de Vigo é juncada por mariscadores

Passados algo como três anos, voltei a reencontrar Jorge Cadete, agora numa outra cidade e em outro clube. Com efeito, após duas temporadas de sucessos em Glasgow, onde era adorado, e acabou por apostar no Real Club Celta e na cidade de Vigo, trocando um clube reconhecido por um outro de qualidade mediana e que só muito dificilmente lutaria por títulos. Como ele esteve sozinho em Glasgow, talvez a proximidade com Portugal o tenha seduzido, sinceramente não sei. Foi para aquilatar todas estas opções que voltou a ser equacionada uma nova entrevista, novamente com Nuno Correia como parceiro. 

Quando chegámos, estacionámos o carro perto de um restaurante para almoçar, e estávamos entretidos com uns calamares quando alguém entrou no estabelecimento e se sentou ao nosso lado.

- Então, tudo bem?

Parece ser sina minha encontrar José Mourinho nos sítios mais improváveis.

O tempo passado com o futebolista foi curto, muito menos comparativamente quando estivemos na Escócia, não mais que dois ou três dias. Por esse factor, limitámo-nos a ir ao estádio Balaídos sem qualquer partida de futebol na agenda, a dar uma espiada na ría de Vigo e, obviamente, a entrevistar o jogador, que, na cidade galega, não teve o mesmo êxito como tivera no Celtic.

Estádio Balaídos
Houve algo, talvez, que o fizesse recordar os bons tempos escoceses – e não tem nada a ver com as condições meteorológicas onde imperava uma tremenda rivalidade entre o Rangers e o Celtic. Não é que seja igual nem nada que se pareça. É que, na Galiza, também há grande rivalidade entre os dois clubes mais representativos da província, o Celta e o Deportivo La Coruña, e os adeptos não se podem ver uns aos outros. Num café perto do estádio, contaram-nos que, se um automóvel com a matrícula de Vigo fosse à Corunha, saía de lá com mossas na chapa e com os vidros paridos, e o mesmo se aplicava em situação contrária

Por acaso, tive a felicidade de, passados uns anos, ter assistido a um Celta-Deportivo para a Taça do Rei e só então me apercebi do clima de quase ódio entre os adeptos de cada clube, ao ponto de também se estender aos jogadores em campo –  houve duas expulsões para cada lado.

Voltámos para Portugal sem grandes certezas em relação à carreira de Cadete, mas regressámos com uma das melhores recordações – uma camisola do Celta comprada na loja do clube.


Atrás das ligações desportivas galaico-portuguesas

Nos primeiros tempos da revista “Mundial”, davam-se privilégios de capa aos jogadores portugueses que militavam em outros campeonatos que não o português, basta relembrar que o N.º 1 foi atribuída a Luís Figo.
À época, não eram assim tantos os futebolistas que andavam lá por fora e, numa das reuniões da redacção onde se discutia qual seria o próximo a merecer honras de capa, saltou o nome de Helder Cristóvão, que se tinha transferido do SL Benfica para o Real Club Deportivo La Coruña. No entanto, a província galega podia dar pano para mangas em termos desportivos, uma vez que, simultaneamente com Helder, também havia Naybet, o marroquino que também se tinha transferido do Sporting CP para o emblema corunhês e as oportunidades únicas de entrevistar um jogador de origem portuguesa, mas que nunca tinha actuado intramuros, de seu nome Corentin Martins e, ainda, o treinador John Toshack, que tinha orientado o Sporting CP há praticamente uma década atrás. A juntar a tudo isto, surgiu a ideia de que também se podia entrevistar o hoquista Rui Lopes, que patinava no Liceo Deportivo La Coruña.

Ora como o que se proponha era um trabalho de alguma envergadura, começámos a sussurrar entre nós que, bom, bom, era irmos os três. Até então, sempre que havia uma deslocação ao estrangeiro, ia sempre um jornalista e o Correia para as fotos. Só havia um óbice: convencer o administrador Paulo Ferreira. Com paninhos quentes, abordámos o assunto e, após alguma hesitação, ele anuiu com a ideia. Boa, pela primeira vez iam dois jornalistas da “Mundial” fazer uma reportagem conjunta!Dito isto, contactámos o jogador e, com carro alugado e hotel marcado, iniciámos viagem, apenas eu e o Gonçalo, porque o Correia já lá estava. A-1, Valença, Tuy  e autopista do Atlântico até à cidade corunhesa.

As fachadas da Corunha viradas para o mar

Ficámos instalados num hotel junto ao porto e, como o encontro com o Helder tinha ficado agendado para o dia seguinte, decidimos ir ao casino, que era perto, tentarmos a sorte nas slots, mas com um acordo: jogamos até ficarmos a zeros. Como seria expectável, começámos a ganhar e, como seria ainda mais esperado, começámos a perder. Ao zero, abandonámos a máquina e, quando nos aprestávamos para regressar ao hotel, damos de chofre com uma cara conhecida: José Mourinho, então olheiro do FC Barcelona e adjunto de Bobby Robson. Não estranhámos assim tanto, porque jogo da próxima jornada seria precisamente entre o “Depor” e o clube catalão, mas ele não nos viu e mós fingimos que não o tínhamos visto – mas saímos do casino às gargalhadas.

As rías altas são mais agrestes que as rías baixas

Invariavelmente, o dia começava por tomarmos o pequeno-almoço num café em frente ao hotel, consultando os jornais do dia, com mais atenção à “Marca”. E foi aí que surgiu a ideia, copiando uma página do jornal madrileno, de fotografar o jogador em vários perfis de corpo inteiro e, depois de serem recortadas e a seguir coladas, surgiam as letras a formar o nome Helder a ilustrar a página de abertura da entrevista.

Estádio Riazor
No dia seguinte, fomos ao encontro de Helder nas bancadas do estádio Riazor, onde o interlocutor se mostrou sempre bem-disposto e com uma ou outra confidência…

- Vocês já foram aos balneários?

Dissemos que não e ele acrescentou:

- Então é melhor não irem…  Aquilo não tem condições nenhumas.

- São assim tão más?

- Xiii, se são! Não percebo como este clube, que investe tanto na compra de jogadores, não faça obras para ter um balneário decente. Ou, então, era eu que estava mal-habituado em Portugal!

Finda a entrevista, fomos ter com Rui Lopes ao pavilhão do Liceo, onde, entre outras coisas, garantiu que tinha ido para a Corunha por motivos financeiros e por representar um dos melhores clubes de hóquei em patins da Europa.

Pavilhão do Liceo La Coruña
Mas ainda houve outra entrevista que não estava no guião inicial: o presidente do clube, Augusto César Lendoiro. Perguntámos como e onde o pedrámos encontrar e as respostas que obtivemos foram desarmantes: “Simples, basta irem ao gabinete dele”. E assim foi. Explicámos à secretária o que pretendíamos, ela pediu-nos uns minutos e, pouco depois, disse-nos que podámos entrar. Encontrámos um homem sorridente que nos foi explicando os projectos que tinha para o clube e quais as razões de sucesso do Deportivo. Por acaso, tínhamos levados alguns exemplares da “Mundial”, uma das quais com João Vieira Pinto na capa. Lendoiro sorriu, apontou para a foto…

- Sabem, este, com muita pena minha, não vem. Mas é o jogador que eu mais queria trazer para a equipa.

Num dos dias em que andávamos a cirandar em redor do estádio, vimos, por mera casualidade, o treinador John Toshack, e rapidamente o abordámos para solicitar uma entrevista, mas o galês atalhou-nos as palavras:
Com Augusto César Lendoiro

- Vocês são do Porto ou de Lisboa?

Dissemos de onde éramos e ele retorquiu:

- Bem, nesse caso, tudo bem.

No entanto, apenas conseguimos sacar algumas palavras que não deram para fazer uma entrevista formal. Pena.

A Torre de Hercules, o maior ex-libris da Corunha
Nas pausas entre a marcação das entrevistas, ainda fizemos uns curtos périplos pela cidade: a Torre de Hércules, obviamente, as fachadas envidraçadas na marginal, a praia e um vislumbre da ría. E foi num desses passeios, já à noite, que a fome começou a apertar. Procurámos um restaurante e olhámos para um que nos pareceu bem. Entrámos e aquele que   aparentava ser o dono cumprimentou-nos:

- Bienvenidos al Prada a Tope!

Perguntámos qual o significado daquela frase o homem, dono de um bigode hirsuto, explicou com entusiasmo na voz:

- É uma expressão que utilizamos muito na minha terra. Sou de Ponferrada, na região de El Bierzo, e abri aqui este restaurante para dar mostras da comida leonesa.

O espaço era muito acolhedor, de estilo rústico, na decoração e na madeira das mesas e dos bancos corridos. Aliás, gostámos tano que ainda lá voltámos mais uma vez.  As especialidades eram nacos suculentos de carne grelhada, mas o que me ficou na memória foi a entrada: umas setas (cogumelos) grelhadas e de generosas dimensões – semelhantes, apenas degustei algo igual num parque de campismo em Salamanca, uns bons anos mais tarde.

Restaurante "Prada a Tope"
As noites, após o jantar, eram passadas no hotel a redigir a reportagem para adiantar serviço, mas que de pouco serviu para o objectivo, sobretudo para o Gonçalo: como na altura os portáteis eram uma raridade, levámos uma máquina de escrever elétrica, eu fiz a minha parte, mas, quando chegou a vez dele, a fita acabou, para sua grande irritação. Ou seja, tinha de escrever à posteriori, já em Lisboa. E eu fingi que tive pena dele…

Além das entrevistas, o nosso maior aliciante era o jogo na véspera da nossa estadia na Galiza, entre o “Depor” e o “Barça”. Não ficámos na bancada de imprensa, só nos arranjaram bilhetes no meio dos inchas locais, e ficámos tão entusiasmados com o ambiente que nos rodeava que, quando demos por nós, estávamos a gritar “De-por-ti-vo, De-por-ti-vo!” Nada contra o FC Barcelona, mas, já que estávamos na Corunha, naquele dia e àquela hora, fomos adeptos do Depor.