Nos primeiros tempos
da revista “Mundial”, davam-se privilégios de capa aos jogadores portugueses
que militavam em outros campeonatos que não o português, basta relembrar que o N.º 1 foi atribuída a Luís Figo.
À época, não eram
assim tantos os futebolistas que andavam lá por fora e, numa das reuniões da
redacção onde se discutia qual seria o próximo a merecer honras de capa, saltou
o nome de Helder Cristóvão, que se tinha transferido do SL Benfica para o Real
Club Deportivo La Coruña. No entanto, a província galega podia dar pano para
mangas em termos desportivos, uma vez que, simultaneamente com Helder, também
havia Naybet, o marroquino que também se tinha transferido do Sporting CP para
o emblema corunhês e as oportunidades únicas de entrevistar um jogador de
origem portuguesa, mas que nunca tinha actuado intramuros, de seu nome Corentin
Martins e, ainda, o treinador John Toshack, que tinha orientado o Sporting CP
há praticamente uma década atrás. A juntar a tudo isto, surgiu a ideia de que
também se podia entrevistar o hoquista Rui Lopes, que patinava no Liceo
Deportivo La Coruña.
Ora como o que se
proponha era um trabalho de alguma envergadura, começámos a sussurrar entre nós
que, bom, bom, era irmos os três. Até então, sempre que havia uma deslocação ao
estrangeiro, ia sempre um jornalista e o Correia para as fotos. Só havia um
óbice: convencer o administrador Paulo Ferreira. Com paninhos quentes,
abordámos o assunto e, após alguma hesitação, ele anuiu com a ideia. Boa, pela primeira
vez iam dois jornalistas da “Mundial” fazer uma reportagem conjunta!Dito isto,
contactámos o jogador e, com carro alugado e hotel marcado, iniciámos viagem,
apenas eu e o Gonçalo, porque o Correia já lá estava. A-1, Valença, Tuy e autopista do Atlântico até à cidade corunhesa.
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| As fachadas da Corunha viradas para o mar |
Ficámos instalados
num hotel junto ao porto e, como o encontro com o Helder tinha ficado agendado
para o dia seguinte, decidimos ir ao casino, que era perto, tentarmos a sorte
nas slots, mas com um acordo: jogamos até ficarmos a zeros. Como seria
expectável, começámos a ganhar e, como seria ainda mais esperado, começámos a
perder. Ao zero, abandonámos a máquina e, quando nos aprestávamos para
regressar ao hotel, damos de chofre com uma cara conhecida: José Mourinho,
então olheiro do FC Barcelona e adjunto de Bobby Robson. Não estranhámos assim
tanto, porque jogo da próxima jornada seria precisamente entre o “Depor” e o
clube catalão, mas ele não nos viu e mós fingimos que não o tínhamos visto –
mas saímos do casino às gargalhadas.
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| As rías altas são mais agrestes que as rías baixas |
Invariavelmente, o
dia começava por tomarmos o pequeno-almoço num café em frente ao hotel,
consultando os jornais do dia, com mais atenção à “Marca”. E foi aí que surgiu
a ideia, copiando uma página do jornal madrileno, de fotografar o jogador em
vários perfis de corpo inteiro e, depois de serem recortadas e a seguir coladas,
surgiam as letras a formar o nome Helder a ilustrar a página de abertura da
entrevista.
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| Estádio Riazor |
No dia seguinte,
fomos ao encontro de Helder nas bancadas do estádio Riazor, onde o interlocutor
se mostrou sempre bem-disposto e com uma ou outra confidência…
- Vocês já foram aos
balneários?
Dissemos que não e
ele acrescentou:
- Então é melhor não
irem… Aquilo não tem condições nenhumas.
- São assim tão más?
- Xiii, se são! Não percebo
como este clube, que investe tanto na compra de jogadores, não faça obras para
ter um balneário decente. Ou, então, era eu que estava mal-habituado em
Portugal!
Finda a entrevista,
fomos ter com Rui Lopes ao pavilhão do Liceo, onde, entre outras coisas,
garantiu que tinha ido para a Corunha por motivos financeiros e por representar
um dos melhores clubes de hóquei em patins da Europa.
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| Pavilhão do Liceo La Coruña |
Mas ainda houve outra
entrevista que não estava no guião inicial: o presidente do clube, Augusto
César Lendoiro. Perguntámos como e onde o pedrámos encontrar e as respostas que
obtivemos foram desarmantes: “Simples, basta irem ao gabinete dele”. E assim foi.
Explicámos à secretária o que pretendíamos, ela pediu-nos uns minutos e, pouco
depois, disse-nos que podámos entrar. Encontrámos um homem sorridente que nos
foi explicando os projectos que tinha para o clube e quais as razões de sucesso
do Deportivo. Por acaso, tínhamos levados alguns exemplares da “Mundial”, uma
das quais com João Vieira Pinto na capa. Lendoiro sorriu, apontou para a foto…
- Sabem, este, com
muita pena minha, não vem. Mas é o jogador que eu mais queria trazer para a
equipa.
Num dos dias em que andávamos a cirandar em redor do estádio, vimos, por mera casualidade, o treinador John Toshack, e rapidamente o abordámos para solicitar uma entrevista, mas o galês atalhou-nos as palavras:
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| Com Augusto César Lendoiro |
- Vocês são do Porto
ou de Lisboa?
Dissemos de onde
éramos e ele retorquiu:
- Bem, nesse caso,
tudo bem.
No entanto, apenas
conseguimos sacar algumas palavras que não deram para fazer uma entrevista
formal. Pena.
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| A Torre de Hercules, o maior ex-libris da Corunha |
Nas pausas entre a
marcação das entrevistas, ainda fizemos uns curtos périplos pela cidade: a
Torre de Hércules, obviamente, as fachadas envidraçadas na marginal, a praia e
um vislumbre da ría. E foi num desses passeios, já à noite, que a fome começou
a apertar. Procurámos um restaurante e olhámos para um que nos pareceu bem.
Entrámos e aquele que aparentava ser o
dono cumprimentou-nos:
- Bienvenidos al
Prada a Tope!
Perguntámos qual o
significado daquela frase o homem, dono de um bigode hirsuto, explicou com
entusiasmo na voz:
- É uma expressão
que utilizamos muito na minha terra. Sou de Ponferrada, na região de El Bierzo,
e abri aqui este restaurante para dar mostras da comida leonesa.
O espaço era muito
acolhedor, de estilo rústico, na decoração e na madeira das mesas e dos bancos
corridos. Aliás, gostámos tano que ainda lá voltámos mais uma vez. As especialidades eram nacos suculentos de
carne grelhada, mas o que me ficou na memória foi a entrada: umas setas
(cogumelos) grelhadas e de generosas dimensões – semelhantes, apenas degustei
algo igual num parque de campismo em Salamanca, uns bons anos mais tarde.
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| Restaurante "Prada a Tope" |
As noites, após o
jantar, eram passadas no hotel a redigir a reportagem para adiantar serviço,
mas que de pouco serviu para o objectivo, sobretudo para o Gonçalo: como na
altura os portáteis eram uma raridade, levámos uma máquina de escrever
elétrica, eu fiz a minha parte, mas, quando chegou a vez dele, a fita acabou,
para sua grande irritação. Ou seja, tinha de escrever à posteriori, já em
Lisboa. E eu fingi que tive pena dele…
Além das entrevistas,
o nosso maior aliciante era o jogo na véspera da nossa estadia na Galiza, entre
o “Depor” e o “Barça”. Não ficámos na bancada de imprensa, só nos arranjaram
bilhetes no meio dos inchas locais, e ficámos tão entusiasmados com o
ambiente que nos rodeava que, quando demos por nós, estávamos a gritar “De-por-ti-vo,
De-por-ti-vo!” Nada contra o FC Barcelona, mas, já que estávamos na Corunha,
naquele dia e àquela hora, fomos adeptos do Depor.
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