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21 janeiro 2026

Futebol de rua entre Viena e Londres

Foram apenas duas as vezes em que fui convidado para reportar um evento, do qual pouco conhecia, espaçado em dois anos consecutivos, em não mais do que dois ou três dias em cada um deles, tendo como palco Viena e Londres.

Na altura, a Puma, uma marca desportiva alemã, tentava implementar-se em Portugal, até porque muitíssimas poucas equipas utilizavam o logo do felino nos seus equipamentos, pelo menos os ditos três “grandes” – a adidas era predominante.

Abra-se um parêntese para contar a história de dois irmãos alemães, Adol (ou Adi) e Rudolf Dassler, que fundaram um inovador método de fabricar calçado desportivo. Adi era o sapateiro e Rudolf era o homem dos negócio e distribuição. A questão era que os dois tinham visões diferentes do produto, ao ponto de – eles que eram até então inseparáveis – se terem tornado inimigos. Adi continuou a fabricar as sapatilhas, fundado a “adidas” (junção do nome próprio com as primeiras três letras do apelido) e Rudolf decidiu criar uma marca diferente, a “Puma”. Certo é que continuaram de costas voltadas, ao ponto de, após as suas mortes, as campas terem ficado o mais afastadas possível uma da outra no cemitério local.

Retomemos o fio à meada: o futebol de rua, ou Street Soccer, era um desporto já com forte implementação na Europa, chegando a haver, inclusive, competições devidamente organizadas. Embora Portugal estivesse um pouco à margem, decidiu-se fazer um campeonato à pressa para ter uma equipa representante – a vencedora iria estar em Viena, local do torneio internacional.

Muitos poderão questionar o que é, afinal, o futebol de rua. Todos os miúdos e graúdos jogam à bola na rua por Portugal inteiro, em vilas, aldeias e cidades, mas o Street Soccer é diferente e tem as suas próprias regras: a quadra é pequena, as tabelas e as balizas são insufláveis e os guarda-redes não podem sair da área.

Quadra do futebol de rua

Os responsáveis pela Puma em Portugal endereçaram um convite para que um jornalista da “Mundial” acompanhasse o evento, e tocou-me a mim essa tarefa.

Sinceramente, pouco retenho na memória dos dois dias passados na capital austríaca. Recordo o hotel mal-amanhado em que fiquei instalado num subúrbio da cidade, alguns jogos, nos quais os portugueses ainda estava a tentar perceber as regras, e num dos intervalos entre as partidas, ter dado uma volta ao quarteirão para ter minimamente um vislumbre de Viena. Estive numa praça monumental, da nunca retive o nome, e apercebi-me de que a cidade ostentava um certo garbo. E foi isto, tão simplesmente, só isto.

Além de ter voltado para Portugal com algumas ofertas da Puma: um saco de viagem, um impermeável, um equipamento de futebol e uma Sweat-shirt.

 

Algures em Viena

No ano seguinte, recebeu-se novo convite e, como já tinha tido a experiência de Viena, foi com naturalidade que voltei a acompanhar o Street Soccer, desta vez em Londres.

Os jogos decorreram na Wembley Arena, uma espécie de pavilhão por baixo do mítico estádio, mas infelizmente não tive a oportunidade de aceder às suas bancadas. A prestação da equipa portuguesa foi sofrível, mas um dos jogos valeu pela presença de umas garbosas – e não só –cheerleaders que abrilhantaram o torneio.


Para já, adiante-se que usufrui mais da capital britânica comparativamente à capital austríaca, não tanto por ter estado mais um dia, mas sim por ter absorvido algo mais substancial.

Um dos pontos altos durante a visita foi ter ido ao mercado de Notting Hill, um dos bairros mais charmosos de Londres – à parte o Hugh Grant e a Julia Roberts.  O mercado é uma roda-viva de visitantes e curiosos em busca de todo um mundo vintage em preço de saldo: antiguidades, discos de vinil, vestuário, placas de matrícula e de nomes de ruas, e até frutas, verduras e especiarias.

Mercado de Notting Hill, Portobello Road

Em dias de sol é uma alegria, não só pelo corrupio de gentes de todo o mundo, mas também pelas fachadas coloridas da Portobello Road. Tive pena de não ter ido a Camden, o outro mercado carismático de Londres. Talvez numa próxima, quem sabe.

Depois de Notting Hill, um dos representantes da Puma disse-me que tinha bilhetes para um jogo de futebol e se eu queria ir. Obviamente, não queria perder a oportunidade de assistir ao vivo a um jogo da Championship (a segunda divisão inglesa) entre o AFC Wimbledon e o Derby County FC. Quando dei por mim, percebi que o meu bilhete era entre os hooligans locais, mas adorei ter estado no Plough Lane a ver um jogo acérrimo tipicamente britânico e ainda ter tido a sorte de ver 6 golos – 3-3.

Cena do quotidiano londrino: autocarros, táxis e metropolitano

A última noite, já com o torneio encerrado, consistiu num jantar com todos os representantes da Puma no “Planet Hollywood”. Nunca consegui resistir a umas generosas ribs com aquele fantástico molho barbecue – foi, de longe. a mais saborosa despedida de Londres.

 

 

21 dezembro 2025

De Glasgow a Vigo com Jorge Cadete

Ainda na senda dos futebolistas portugueses que jogaram em ligas estrangeiras, teríamos de ir à Escócia para fazer uma reportagem com Jorge Cadete, que eu já conhecia desde os tempos do jornal “Sporting”, e que, depois de sair de Alvalade, onde tinha o estatuo de “capitão” de equipa, rumou para o Celtic FC, um dos “grandes” clubes escoceses, a par do Rangers FC e que, curiosamente, continuou a jogar com a camisola listada horizontalmente de verde e branco – pelo menos, não foi por aí que poderia sentir-se desambientado. Certo, certo, é que o jogador gerou uma enorme onda de popularidade e rapidamente caiu no goto dos exigentes supporters do clube, que adoravam o seu espírito “guerreiro” em campo e pelos golos em catadupa que ia marcando.
Antes do mais, há que fazer um apanhado geral do futebol escocês, que tem diversas particularidades. Há dois clubes que dominam a centenária liga – com uma ou outra intromissão do Aberdeen FC de Sir Alex Ferguson – e que contemplam uma rivalidade acérrima também ela centenária. As razões dessa rivalidade prendem-se com questões de ordem religiosa, social e geográfica: os adeptos do Celtic são apelidados de “católicos”, ao passo que os do Rangers têm o epíteto de “protestantes”, obviamente com a conotação de credo entre as duas fações. Depois, há que ir à fundação: as origens do Celtic remontam a 1887, surgindo por vontade da humilde população irlandesa que tinha emigrado para a Escócia e que queria ter a sua expressão futebolística por oposição ao Rangers, fundado antes – e não surpreende, por isso, que as bancadas estejam frequentemente engalanadas com bandeiras da República da Irlanda, assim como faz sentido que o emblema seja um trevo.
Já o Rangers foi fundado por jovens da classe média-alta da cidade de filiação protestante e com ramificações anglicanas – daí que, por oposição ao Celtic, abundem as bandeiras do Reino Unido durante os jogos. Para se ter uma noção, basta dizer que está nos estatutos do clube não contratarem jogadores que, por baptizado, sejam católicos. A juntar a este caldeirão de diversidades, resta referir que os adeptos do Celtic residem na margem Leste do rio Clyde, ao passo que os do Rangers vivem na margem oposta. Aliás, asseguraram-me que não é nada conveniente adeptos e jogadores do Celtic irem para a área contrária, e vice-versa. As poucas excepções são relativas aos jogadores não-escoceses. Esses, aí, podem movimentar-se à-vontade.
Os jogos entre eles, apelidados de Old Firm, movimentam toda a cidade, seja no Celtic Park ou no Ibrox, onde as paixões e o fanatismo sobem aos píncaros. O que é espantoso, no meio de tudo isto, é que, sejam católicos ou protestantes, todos se unem quando o que está em causa é a selecção escocesa.

A fachada do hotel


A maior cidade escocesa apresentou-se, logo à chegada, coberta de chuva, como era previsível. Apanhámos um daqueles típicos táxis das ilhas britânicas e fomos para um hotel decrépito na down town, onde eu e o Nuno Galvão Correia tratámos de ir jantar a um restaurante tailandês onde sabíamos que Cadete iria lá estar, conforme combinado anteriormente. Mas não fomos só nós que estavam no repasto: havia ainda um jornalista português que também tinha acabado de fazer uma reportagem com o jogador, mas que estava de abalada, e mais três personagens.


- Meus caros, estes são os meus amigos, o Graham, o Victor e a Emilly.

Pois bem, o primeiro era o mais velho e um pouco reservado, o segundo era um fulano um pouco estranho, baixote, com um bigodinho ridículo e que passou quase todo o tempo a rir por tudo e por nada, e a rapariga era uma jovem bem-apessoada com ar irreverente.

No dia seguinte, já tínhamos o plano traçado: como o jogo seria apenas à noite, passámos o dia na companhia de Graham para fazermos um périplo pela cidade. Para variar, tudo o que vimos foi sob chuva, o que tornou a urbe ainda mais escura e cinzenta, refletido no aspecto austero das fachadas dos prédios que não eram lambidas pelo Sol há muitas horas. Sinceramente, Glasgow não nos estava propriamente a deslumbrar.

O cinzento abunda um pouco por toda a cidade
Estávamos abrigados no carro a trocar algumas impressões com o nosso “guia” de ocasião quando fomos abordados por um polícia. Ah, e tal, o que estão aqui a fazer, isto é um pouco suspeito, blá-blá, blá-blá.

O Graham empertigou-se, afastou a calma que era seu apanágio, e respondeu que nós éramos jornalistas portugueses e que ele estava a fazer uma visita guiada pelos locais mais emblemáticos da cidade. Pelo ar indignado que empregou, o polícia deixou-nos em paz. Mas o Graham ainda fez questão de desabafar:

- Stupid policeman, it seems he’s english…

Lançámos achas para a fogueira:

- You don’t like the english people, righ?

- Do you think so? In fact, we hate those bloody fucking bastards!

Acho que percebemos a ideia.

A entrada VIP do Celtic Park

O ponto alto do dia (ou da noite) foi no dia seguinte, pois íamos assistir ao jogo com Heart of Midlothian FC, ou simplesmente “Hearts”. O estádio estava repleto e havia alguma tensão, porque o clube de Edimburgo perfilha alguns dos ideais do Rangers, por oposição ao Hibernian FC, também da capital e de origens irlandesas, que grangeia simpatia para com o Celtic.

O Nuno Correia, antes do jogo, pediu algo a Cadete:

- Olha, eu estou atrás da baliza para onde atacas e depois mudo ao intervalo. Se marcares um golo, vem celebrar para o pé de mim, para eu te tirar uma “g’anda” foto, ok? Não te esqueças!

Vi o Nuno posicionar-se numa das balizas e eu fui para a bancada de imprensa, onde se fazia sentir um frio de rachar. Ao intervalo, o Celtic já ganhava por 2-0 e eu aproveitei esses 15 minutos de pausa para ir à sala de imprensa, pelo menos ali não fazia tanto frio. A agradável surpresa foi quando chegou um empregado com tigelas de caldo-verde quentinho que distribuiu por todos os jornalistas locais e que, a mim, soube-me pela vida!

O jogo, assinalado pela estreia de Paolo di Canio, saldou-se por um 3-0 final. Ah, e o Correia não chegou a tirar a tão almejada foto…

O interior do Celtic Park
Ao longo da semana, aconteceram alguns episódios engraçados, muitas vezes também com as presenças dos seus dois amigos Graham e o Victor. Em relação a este último, Cadete fez questão em lhe ensinar algumas expressões em português vernáculo que aqui me escuso a proferir. O sujeito patusco memorizou algumas delas e passou todo o tempo a repeti-las, estivesse onde estivesse. Sempre que acabava uma destas frases começava a rir-se alarvemente, visivelmente orgulhoso por falar português. As gargalhadas eram tão contagiantes que eu, o Nuno e o Cadete não conseguíamos parar de rir.

Houve um dia que Cadete perguntou se o queríamos acompanhar numa sessão fotográfica publicitária, se não me engano a uma marca de feijões enlatados. Fomos no carro dele até ao estúdio, ele equipou-se à Celtic e, vindo de outro lado, surgiu um fulano com a camisola do Rangers. Vim a saber, depois, que era alemão e que jogava pelo clube rival. Sendo Cadete português e o outro alemão, não havia motivos para rivalidades que lhes passavam completamente ao lado. O que não vale uma lata de feijões.

Uma vez saídos do estúdio, voltámos com Cadete a conduzir e, numa das artérias mais movimentadas de Glasgow, parámos num sinal vermelho. Os outros condutores, quando viram quem estava ao volante, saíram dos carros para o cumprimentar e pedir autógrafos. Tal como eles, também os peões que atravessavam a rua abeiraram-se da janela a solicitar autógrafos, fotografias e mais autógrafos. Cadete distribuiu-se em simpatias e eu deixei de contar o número de vezes que o semáforo mudou de luzes. Estivemos ali parados bastante tempo e isso serviu para a atestar a popularidade do jogador. Em Glasgow, Cadete era um ídolo, quase um deus.

A ideia foi do Nuno:

- Jorge, e estava aqui a pensar uma coisa... Que tal irmos a uma loja de kilts para eu te fotografar?

- Como assim? Queres ver-me de saias, é isso?

- Não, pá, é uma coisa séria, ia dar umas fotos engraçadas.

Cadete alinhou na ideia, e fomos a uma loja que exibia na montra uma quantidade assinalável de kilts. Quando entrámos, a empregada reconheceu-o e disse-lhe que, no fim, queria um autógrafo. Ele foi para a cabina de trocas e, quando voltou, eu e o Correia fizemos um esforço para conter o riso. Apareceu com uma camisa branca, suspensórios, meias brancas e um kilt axadrezado azul e preto. A empregada deu umas dobras na vestimenta para ele parece um highlander a sério e o Nuno fotografou-o de alto a baixo em vários ângulos e poses. E seguiu-se o diálogo entre eles:

- Jorge, isto não está a resultar…

- Não? Estou mal?

- Não é isso, é o kilt.

- O que tem o kilt?

- É azul, devia ser verde!

- Pois, faz sentido! 

Eu e o Nuno também achámos.

Voltou para dentro, surgiu desta feita com um kilt verde e preto e a empregada aprovou. Eu e o Nuno também.

 saída, não me contive:

- Jorge, posso tratar-te por Jorge McCadete?

Na última noite, para nos despedirmos da cidade, fomos sair à noite com Cadete, com o Graham, com o Victor e a Emilly até um bar com vídeo-clips a passar no ecrã gigante onde, a determinada altura, surgiu Jon Bon Jovi a cantar “Livin’On a Prayer”. A Emilly aproximou-se de mim e sussurrou-me:

- He´so gorgeus, it looks like Jorge, dont you think so? 

Não respondi e limitei-me a sorrir.

O frio e a chuva não invalidam a animação nocturna

Já a pé, a caminho do hotel, não deixei de ficar surpreendido quando nos cruzámos com miúdas com vestidos leves, decotados, minissaias, sandálias abertas e que, apesar da chuva inclemente, chapinhavam nas poças de água das ruas e só passavam de roxo para o tom natural dentro de espaços fechados e aquecidos. Para nos abrigarmos daquela irritante chuva miudinha, eu e o Nuno Correia fomos a um ou dois pubs, ouvindo com regularidade a cantiga dedicada pelos adeptos a Cadete, berrada a plenos pulmões pelos fans mais empedernidos e com as faces rosadas da embriaguez: 

“There´s only one Jorge Cadete,

He puts the ball in the nety

He´s portuguese, he scores with ease

Walking in Jorge’s wondeland”


A ría baixa de Vigo é juncada por mariscadores

Passados algo como três anos, voltei a reencontrar Jorge Cadete, agora numa outra cidade e em outro clube. Com efeito, após duas temporadas de sucessos em Glasgow, onde era adorado, e acabou por apostar no Real Club Celta e na cidade de Vigo, trocando um clube reconhecido por um outro de qualidade mediana e que só muito dificilmente lutaria por títulos. Como ele esteve sozinho em Glasgow, talvez a proximidade com Portugal o tenha seduzido, sinceramente não sei. Foi para aquilatar todas estas opções que voltou a ser equacionada uma nova entrevista, novamente com Nuno Correia como parceiro. 

Quando chegámos, estacionámos o carro perto de um restaurante para almoçar, e estávamos entretidos com uns calamares quando alguém entrou no estabelecimento e se sentou ao nosso lado.

- Então, tudo bem?

Parece ser sina minha encontrar José Mourinho nos sítios mais improváveis.

O tempo passado com o futebolista foi curto, muito menos comparativamente quando estivemos na Escócia, não mais que dois ou três dias. Por esse factor, limitámo-nos a ir ao estádio Balaídos sem qualquer partida de futebol na agenda, a dar uma espiada na ría de Vigo e, obviamente, a entrevistar o jogador, que, na cidade galega, não teve o mesmo êxito como tivera no Celtic.

Estádio Balaídos
Houve algo, talvez, que o fizesse recordar os bons tempos escoceses – e não tem nada a ver com as condições meteorológicas onde imperava uma tremenda rivalidade entre o Rangers e o Celtic. Não é que seja igual nem nada que se pareça. É que, na Galiza, também há grande rivalidade entre os dois clubes mais representativos da província, o Celta e o Deportivo La Coruña, e os adeptos não se podem ver uns aos outros. Num café perto do estádio, contaram-nos que, se um automóvel com a matrícula de Vigo fosse à Corunha, saía de lá com mossas na chapa e com os vidros paridos, e o mesmo se aplicava em situação contrária

Por acaso, tive a felicidade de, passados uns anos, ter assistido a um Celta-Deportivo para a Taça do Rei e só então me apercebi do clima de quase ódio entre os adeptos de cada clube, ao ponto de também se estender aos jogadores em campo –  houve duas expulsões para cada lado.

Voltámos para Portugal sem grandes certezas em relação à carreira de Cadete, mas regressámos com uma das melhores recordações – uma camisola do Celta comprada na loja do clube.


Atrás das ligações desportivas galaico-portuguesas

Nos primeiros tempos da revista “Mundial”, davam-se privilégios de capa aos jogadores portugueses que militavam em outros campeonatos que não o português, basta relembrar que o N.º 1 foi atribuída a Luís Figo.
À época, não eram assim tantos os futebolistas que andavam lá por fora e, numa das reuniões da redacção onde se discutia qual seria o próximo a merecer honras de capa, saltou o nome de Helder Cristóvão, que se tinha transferido do SL Benfica para o Real Club Deportivo La Coruña. No entanto, a província galega podia dar pano para mangas em termos desportivos, uma vez que, simultaneamente com Helder, também havia Naybet, o marroquino que também se tinha transferido do Sporting CP para o emblema corunhês e as oportunidades únicas de entrevistar um jogador de origem portuguesa, mas que nunca tinha actuado intramuros, de seu nome Corentin Martins e, ainda, o treinador John Toshack, que tinha orientado o Sporting CP há praticamente uma década atrás. A juntar a tudo isto, surgiu a ideia de que também se podia entrevistar o hoquista Rui Lopes, que patinava no Liceo Deportivo La Coruña.

Ora como o que se proponha era um trabalho de alguma envergadura, começámos a sussurrar entre nós que, bom, bom, era irmos os três. Até então, sempre que havia uma deslocação ao estrangeiro, ia sempre um jornalista e o Correia para as fotos. Só havia um óbice: convencer o administrador Paulo Ferreira. Com paninhos quentes, abordámos o assunto e, após alguma hesitação, ele anuiu com a ideia. Boa, pela primeira vez iam dois jornalistas da “Mundial” fazer uma reportagem conjunta!Dito isto, contactámos o jogador e, com carro alugado e hotel marcado, iniciámos viagem, apenas eu e o Gonçalo, porque o Correia já lá estava. A-1, Valença, Tuy  e autopista do Atlântico até à cidade corunhesa.

As fachadas da Corunha viradas para o mar

Ficámos instalados num hotel junto ao porto e, como o encontro com o Helder tinha ficado agendado para o dia seguinte, decidimos ir ao casino, que era perto, tentarmos a sorte nas slots, mas com um acordo: jogamos até ficarmos a zeros. Como seria expectável, começámos a ganhar e, como seria ainda mais esperado, começámos a perder. Ao zero, abandonámos a máquina e, quando nos aprestávamos para regressar ao hotel, damos de chofre com uma cara conhecida: José Mourinho, então olheiro do FC Barcelona e adjunto de Bobby Robson. Não estranhámos assim tanto, porque jogo da próxima jornada seria precisamente entre o “Depor” e o clube catalão, mas ele não nos viu e mós fingimos que não o tínhamos visto – mas saímos do casino às gargalhadas.

As rías altas são mais agrestes que as rías baixas

Invariavelmente, o dia começava por tomarmos o pequeno-almoço num café em frente ao hotel, consultando os jornais do dia, com mais atenção à “Marca”. E foi aí que surgiu a ideia, copiando uma página do jornal madrileno, de fotografar o jogador em vários perfis de corpo inteiro e, depois de serem recortadas e a seguir coladas, surgiam as letras a formar o nome Helder a ilustrar a página de abertura da entrevista.

Estádio Riazor
No dia seguinte, fomos ao encontro de Helder nas bancadas do estádio Riazor, onde o interlocutor se mostrou sempre bem-disposto e com uma ou outra confidência…

- Vocês já foram aos balneários?

Dissemos que não e ele acrescentou:

- Então é melhor não irem…  Aquilo não tem condições nenhumas.

- São assim tão más?

- Xiii, se são! Não percebo como este clube, que investe tanto na compra de jogadores, não faça obras para ter um balneário decente. Ou, então, era eu que estava mal-habituado em Portugal!

Finda a entrevista, fomos ter com Rui Lopes ao pavilhão do Liceo, onde, entre outras coisas, garantiu que tinha ido para a Corunha por motivos financeiros e por representar um dos melhores clubes de hóquei em patins da Europa.

Pavilhão do Liceo La Coruña
Mas ainda houve outra entrevista que não estava no guião inicial: o presidente do clube, Augusto César Lendoiro. Perguntámos como e onde o pedrámos encontrar e as respostas que obtivemos foram desarmantes: “Simples, basta irem ao gabinete dele”. E assim foi. Explicámos à secretária o que pretendíamos, ela pediu-nos uns minutos e, pouco depois, disse-nos que podámos entrar. Encontrámos um homem sorridente que nos foi explicando os projectos que tinha para o clube e quais as razões de sucesso do Deportivo. Por acaso, tínhamos levados alguns exemplares da “Mundial”, uma das quais com João Vieira Pinto na capa. Lendoiro sorriu, apontou para a foto…

- Sabem, este, com muita pena minha, não vem. Mas é o jogador que eu mais queria trazer para a equipa.

Num dos dias em que andávamos a cirandar em redor do estádio, vimos, por mera casualidade, o treinador John Toshack, e rapidamente o abordámos para solicitar uma entrevista, mas o galês atalhou-nos as palavras:
Com Augusto César Lendoiro

- Vocês são do Porto ou de Lisboa?

Dissemos de onde éramos e ele retorquiu:

- Bem, nesse caso, tudo bem.

No entanto, apenas conseguimos sacar algumas palavras que não deram para fazer uma entrevista formal. Pena.

A Torre de Hercules, o maior ex-libris da Corunha
Nas pausas entre a marcação das entrevistas, ainda fizemos uns curtos périplos pela cidade: a Torre de Hércules, obviamente, as fachadas envidraçadas na marginal, a praia e um vislumbre da ría. E foi num desses passeios, já à noite, que a fome começou a apertar. Procurámos um restaurante e olhámos para um que nos pareceu bem. Entrámos e aquele que   aparentava ser o dono cumprimentou-nos:

- Bienvenidos al Prada a Tope!

Perguntámos qual o significado daquela frase o homem, dono de um bigode hirsuto, explicou com entusiasmo na voz:

- É uma expressão que utilizamos muito na minha terra. Sou de Ponferrada, na região de El Bierzo, e abri aqui este restaurante para dar mostras da comida leonesa.

O espaço era muito acolhedor, de estilo rústico, na decoração e na madeira das mesas e dos bancos corridos. Aliás, gostámos tano que ainda lá voltámos mais uma vez.  As especialidades eram nacos suculentos de carne grelhada, mas o que me ficou na memória foi a entrada: umas setas (cogumelos) grelhadas e de generosas dimensões – semelhantes, apenas degustei algo igual num parque de campismo em Salamanca, uns bons anos mais tarde.

Restaurante "Prada a Tope"
As noites, após o jantar, eram passadas no hotel a redigir a reportagem para adiantar serviço, mas que de pouco serviu para o objectivo, sobretudo para o Gonçalo: como na altura os portáteis eram uma raridade, levámos uma máquina de escrever elétrica, eu fiz a minha parte, mas, quando chegou a vez dele, a fita acabou, para sua grande irritação. Ou seja, tinha de escrever à posteriori, já em Lisboa. E eu fingi que tive pena dele…

Além das entrevistas, o nosso maior aliciante era o jogo na véspera da nossa estadia na Galiza, entre o “Depor” e o “Barça”. Não ficámos na bancada de imprensa, só nos arranjaram bilhetes no meio dos inchas locais, e ficámos tão entusiasmados com o ambiente que nos rodeava que, quando demos por nós, estávamos a gritar “De-por-ti-vo, De-por-ti-vo!” Nada contra o FC Barcelona, mas, já que estávamos na Corunha, naquele dia e àquela hora, fomos adeptos do Depor.

28 abril 2015

Lamentações em Jerusalém

Antes de ingressar na “Mundial”, efectuei a última reportagem ao serviço da “Gazeta dos Desportos”, acompanhando, uma vez mais, a equipa do Sporting CP numa deslocação ao estrangeiro. Estávamos em 1995.
O destino do sorteio da Taça das Taças colocara o Maccabi Haifa no caminho, e fiquei extremamente satisfeito por ter sido destacado para me deslocar a um país distante e, de certa forma, misterioso. Foi uma longa deslocação num charter que estava totalmente ocupado pelos jogadores, equipa técnica, adeptos e jornalistas. Nós, da imprensa, ficámos nos lugares traseiros – onde, naquela altura, se podia fumar – e assisti, com alguma incredulidade, ao constante vaivém dos jogadores até perto de nós, para matar o tempo em conversas… ou para “cravar” um cigarro. 
            Horas depois, aterrámos finalmente no aeroporto Ben Gurion, em Telavive, onde passámos horas mortas à espera de sermos revistados e submetidos a um inquérito, até partirmos de autocarro para Haifa, no norte e não muito distante da fronteira com o Líbano.
A revista foi minuciosa, como já disse, mas também teve contornos um tanto ou quanto estranhos…
- Posso ver a sua mala?
Respondi que sim, à vontade.
- O que está neste saco?
- São meias…
- E neste?
- Hammm… são boxers
Então, o zeloso funcionário perguntou-me:
- Tem consigo algum tipo de arma?
Estive tentado a perguntar-lhe se o canivete suíço ou o corta-unhas contavam, mas achei melhor não.

Vista de Haifa a partir do hotel - o Mediterrâneo acaba aqui
Chegámos a Haifa à noitinha, foi só tempo de comermos qualquer coisa numa esplanada perto do hotel, assistir ao treino de adaptação ao relvado e à luz artificial e, mais tarde, ir até um bar beber qualquer coisa. Foi aqui que deu para constatar que a população de Haifa estava completamente ocidentalizada, pela fluência na língua inglesa e pelo modo de vestir. As empregadas de balcão, então, não se inibiam de ostentar generosos decotes, deixando a descoberto largos centímetros de pele morena…
No dia seguinte acordei com o sol a entrar de jorro pela enorme janela do meu aposento. A vista era magnífica – em frente, o término do Mediterrâneo praticamente sem ondas; ao lado, o sagrado monte Carmelo. Depois de tomado o pequeno-almoço, eu e um grupo de colegas começámos a falar sobre o que fazer ao longo do dia, e rapidamente se chegou à conclusão que estar em Israel e não ir a Jerusalém era uma oportunidade irrecusável. Fizemos as diligências necessárias e fretámos um táxi com sete lugares e, apesar da distância, havia tempo – o jogo era só à noite.
            A viagem foi longa, pelo muito trânsito e pelo estado degradado de algumas estradas mas, ao fim de umas quantas horas, lá chegámos. Não havia propriamente planos, pelo que nos limitámos a seguir os grupos de turistas que, certamente, iriam visitar os lugares mais emblemáticos. Foi assim que em breve vislumbrámos o Muro das Lamentações, o único troço da muralha que restava do antigo templo do rei Salomão. O acesso tinha de obedecer a alguns protocolos: era obrigatório o uso da kippah, aquele chapeuzinho para cobrir a cabeça – eram feitos de papel e distribuídos gratuitamente – e havia uma distinção sexista: homens para o lado esquerdo, mulheres para o lado direito. Aproximei-me da parede de pedra e depressa percebi o porquê da sua designação: ao meu lado, um sacerdote de hábito negro, com longos cabelos e barba comprida, rezava algo ininteligível e, de seguida, batia com a testa na parede. Olhei à volta e muitos mais faziam o mesmo. Certo, por isso deve ser mesmo o muro das lamentações.
Fiquei um pouco impressionado e dirigi-me para um espaço escuro que ladeava uma das alas do muro – era uma sala repleta de sacerdotes sentados em bancos de madeira e que liam a Tora em murmúrios, mas sempre num curioso movimento: balançavam para a frente e para trás enquanto liam e, após alguns minutos, levantavam-se e sempre movimentando a cabeça, diziam orações. Todos faziam o mesmo – quase parecia a “Onda” do Mundial do México. Mais uma vez fiquei impressionado, pelo clima místico do lugar e pela solenidade do momento. À saída, voltámos a juntar-nos e começámos a percorrer as velhas vielas, até depararmos com outro grupo de turistas que se amontoavam a espreitar qualquer coisa. Com curiosidade, aproximámo-nos. Era um buraco, uma espécie de gruta e, assim que apanhei uma nesga, espreitei também – mas era demasiado escuro e não consegui ver nada. Só depois, em conversa com um turista alemão, percebi que era o "Santo Sepulcro", o lugar onde, supostamente, Cristo foi enterrado. Wunderbar!, exclamou o meu interlocutor. Acredito, mas também gostava de ter visto alguma coisa.
Ruelas do bairro palestiniano de Jerusalém
            Avistámos a doirada "Cúpula da Rocha", passámos ao lado do Monte das Oliveiras, mas como a sede e o cansaço tomaram conta de nós, resolvemos abancar numa esplanada no bairro palestiniano. Em cada esquina havia um soldado de metralhadora em punho e, apesar do clima um tanto ou quanto intimidante, isso tranquilizou-nos. Bebemos, comemos, falámos, assistimos ao corrupio de gentes, fomos aliciados constantemente por vendedores de bugigangas e convites para entrar em casas que vendiam tapetes.
            Era hora de regressar, mas meti na cabeça que não queria sair de Jerusalém sem uma recordação. Nem de propósito: a determinada altura, passa por mim um vendedor ambulante e eu fiquei de olho nas cafias e no egal, aqueles panos axadrezados que são utilizados na cabeça e a respectiva tira. Deu-me um preço, mas eu sabia de antemão que teria de regatear, e andámos ali à volta de algumas contas até que decidi fechar o negócio. Saí dali todo contente com o souvenir, considerando-o uma verdadeira pechincha – ideia que mais tarde foi desfeita quando, inconsolável, vi uma igual à venda numa loja do aeroporto de Telavive por mais de metade do preço…
           

A viagem de regresso a Haifa foi penosa. Mais trânsito, mais calor, mas pessoalmente muito mais rápida do que supunha: estendi-me ao comprido no banco de trás que estava vago e adormeci profundamente, só acordando às portas da cidade. Já refeito do torpor, foi só tempo de ir ao hotel e rumar para o estádio, que nessa altura já estava repleto de adeptos. O jogo foi sofrível e pouco emocionante, saldando-se por um 0-0 (que seria corrigido em Alvalade com um 4-0 final) e, antes de este ter terminado, alinhavei as últimas linhas da crónica e enviei-a para a redacção em Lisboa. Seguimos depois para Telavive e entrámos a bordo do charter e, durante a longa viagem, fui recuperando as imagens de Jerusalém, percebendo que não é por acaso que é a cidade sagrada para três religiões. A propósito de três, diga-se que a cafia e o egal do free-shop eram três vezes mais baratos do que o que comprara em Jerusalém. Ficou-me de emenda… ou não?

20 abril 2015

Com Figo em Barcelona

          Ao fim de algo como quatro meses, fiquei extremamente aliciado por um convite para integrar a redacção de um novo projecto. A ideia era inovadora e ambiciosa, agradava-me a restante equipa e o tipo de contrato – passaria a integrar os quadros da editora – eram altamente estimulantes. Não hesitei e abracei o repto com entusiasmo, até porque, sem o saber na altura, a "Gazeta dos Desportos" encerraria definitivamente escasso tempo depois.
            Tudo começou no "Café In", à beira-Tejo, depois de fecharmos a edição da Gazeta. O director, Vítor Galvão Correia, perguntou-me, juntamente com o Gonçalo Pereira, que me acompanhava desde os tempos do jornal “Sporting”, se queríamos ir comer alguma coisa e até porque tinha algo para nos falar. Já passava da meia-noite e, umas sandes depois, disse-nos numa voz arrastada: “Tive reuniões com o administrador de uma editora que quer lançar uma revista desportiva do género destas”, mostrando, então, alguns exemplares da alemã “Sports Live”. Muito bom. “Mas”, continuou, “a ideia é fazer isto à semelhança da Volta ao Mundo, não sei se conhecem”.
           Claro que conhecia: era a primeira revista de viagens lançada em Portugal e já lera algumas que o meu pai comprara. “Pois bem”, continuou, “a editora é a mesma da “Volta ao Mundo” e, depois de algumas conversas com o administrador Paulo Ferreira, vou ficar com o cargo de director e fiquei de escolher uma equipa. Portanto, queria saber se vocês estão interessados…”
Só me faltou andar aos saltos de contentamento pela esplanada fora. Óbvio que sim, claro que sim! Selámos o acordo com um aperto de mão e eu e o Gonçalo levantámos as mãos para um “give me five”. Semanas depois, tivemos as primeiras reuniões, começámos a delinear ideias e fiquei a conhecer os meus colegas da primeira equipa da “Mundial”: os já conhecidos Vítor Correia, o fotógrafo Nuno Correia e o Gonçalo Pereira, e os elementos que não conhecia – o mentor do projecto gráfico Henrique Cayatte, os designers Paulo Barata Côrrea e José Guilherme, a ilustradora Luísa Barreto e a secretária de redacção Maria José - a nossa Zeza.

Para o primeiro número ficou decidido, sem grandes dificuldades, dar a capa a Luís Figo, a maior estrela lusa do momento e que se tinha transferido para o F.C. Barcelona. Tudo ficou tratado – contacto com o jogador, voo, aluguer de automóvel e hotel. Mas a minha viagem não foi directamente para a cidade condal: aproveitando o facto de o Barcelona ir jogar em Madrid contra o Atletico local, apanharia o avião para a capital espanhola, iria assistir ao jogo, dormiria num hotel e, na manhã seguinte, deslocar-me-ia de automóvel até à capital catalã, onde iria ficar duas semanas. Ia sozinho, pois o Nuno Correia só se juntaria dias mais tarde.
Tudo correu como o previsto… “mais ou menos”. O voo foi tranquilo, aluguei o automóvel no aeroporto e, como era cedo, decidi ir primeiro ao hotel deixar as malas. E surgiu o primeiro contratempo: tinha o nome e o endereço, mas não fazia a mais pequena ideia onde era – e, na altura, não havia GPS...
No aeroporto deram-me um mapa da cidade e a localização do hotel, mas andei às voltas sem saber onde me encontrava, encontrando ruas de sentido único e vielas sem saída. De dez em dez minutos pedia informações, algumas contraditórias, até que, por fim, lá dei com aquilo. Era num bairro esconso e, quando entrei, tudo me parecia de séculos passados. Fiz o respectivo check-in e não deixei de reparar em algumas velhas e roliças matronas sentadas no sofá do átrio, com amplos decotes e mirando-me de alto a baixo. Quando fui para os elevadores, tentei fingir que não tinha ouvido os seus comentários, dos quais o mais agradável foi “mira, que guapo!”, seguido de sonoras gargalhadas.
O quarto era uma água-furtada, com uma minúscula janela que dava para as traseiras do prédio e um espaço suficiente para apenas albergar uma cama e uma mesinha de cabeceira. Faltavam horas para o jogo e tentei descansar, mas não consegui – os sons de cariz sexual impediam-no. Dado que não conseguia passar pelas brasas, resolvi ir mais cedo para o estádio pois, pelo menos, sempre me entretinha em vez de estar ali no quarto. Como suspeitei que iria ser novamente o cabo dos trabalhos dar com o hotel no regresso, decidi ir de metro. Passei diversas estações, mudei três vezes de linha e, por fim, dei com o "Vicente Calderón" diante de mim. Já era noite e já havia algum movimento em redor do estádio, mas decidi dar uma volta ao recinto, ficando surpreendido por uma das bancadas estar por cima do rio Manzanares. Até que entrei e, mais uma vez, dei por mim surpreendido: o estádio, por dentro, era muito maior do que deixava antever de fora e, minuto após minutos, as bancadas iam ficando repletas. Quando as equipas entraram em campo, 60 mil pessoas enchiam-nas. O jogo não teve grande história, dada a flagrante superioridade do Atleti, saldando-se o resultado por um 3-1 final.
Finda a partida, regressei ao hotel e voltei a ver as velhas matronas no sofá – se não eram as mesmas, eram iguais, mas desta vez com propostas mais concretas que aqui me recuso a referir. Subi e deitei-me, alimentado pela vontade de partir na manhã seguinte para Barcelona.
           
               Acordei entusiasmado. Foi só tempo de arrumar a mala, sorver o pequeno-almoço e fazer-me à estrada Ao longo de qualquer coisa como 600 quilómetros fui vendo o desfilar da paisagem, atravessando a aridez de Aragão, cruzando o Ebro, parando aqui e ali para retemperar as energias com um café solo até entrar, depois de Saragoça, na autoestrada da Catalunha. Já era noite, mas o fim da etapa estava à vista.
            Passada a portagem, surgiu-me uma dúvida: havia uma bifurcação e não sabia qual delas tomar… Não sei porquê, talvez pela sugestão do nome, arrisquei na saída para a avenida Diagonal, uma decisão ao calhas mas correcta, uma vez que percebi que a artéria atravessava quase toda a cidade. Estes primeiros momentos em Barcelona foram deslumbrantes: O Natal era dali a três semanas e tudo estava iluminado. Reparei particularmente na fachada do "El Corte Inglès", totalmente iluminada com um dos cenários da “Guerra das Estrelas” – La Guerra de las Galaxias, em castelhano. Tinha a morada do hotel, mas senti alguma dificuldade inicial em atentar que as calles eram rúas, e distinguir os carrer das avingudas e as ramblas das plaças. Segundo o mapa, o hotel ficava no bairro de L’Eixample, não muito longe das ramblas, mas não havia meio de atinar com o caminho. Andava às voltas, sabia que estava perto, mas as ruas de sentido obrigatório impediam-me de lá chegar. A determinada altura senti-me meio perdido mas, depois de perguntar aqui e ali, lá acabei por chegar. A primeira impressão do hotel foi boa, mas também, depois daquela experiência em Madrid, qualquer coisa me servia...

As luzes da Avenida Diagonal nas vésperas do Natal 

            Saí do hotel para comer qualquer coisa e passear pelos arredores. Percebi, então, que a localização era privilegiada – perto das ramblas, da Plaça de Catalunya e do Passeig de Gràcia, onde me deslumbrei com as fachadas da "Casa Millá", ou "La Pedrera", e "Batlló", obras do arquitecto Antoni Gaudí. Perto de uma delas, não resisti a entrar numa taperia que seria, a partir de então, o meu lugar eleito para comer. Não havia refeições propriamente ditas, era tudo à base de tapas, raciones e bocadillos, enfim, inúmeros petiscos para “picar”. O “Tapa-Tapa” passou a ser um ponto de paragem obrigatório.


            Voltei para o hotel, porque no dia seguinte teria de começar o trabalho bem cedo, pois tinha de me inteirar sobre toda a realidade do F.C. Barcelona. Para já, o Nuno Correia ainda não tinha chegado e, depois, Figo não estava presente porque tinha ido a Portugal tratar de uns assuntos. Na manhã seguinte rumei para o estádio, que era a meio da longuíssima avenida Diagonal, mas demorei bem mais tempo do que estava à espera – o trânsito era infernal. Quando cheguei, olhei para o exterior e dei por mim a pensar que estava a olhar para um dos mais míticos estádios do Mundo. E mais em sentido fiquei – ao ponto de sentir um arrepio na espinha – quando me sentei na bancada: mesmo vazio, o "Camp Nou" era imponente. Tentei imaginar como seria com 100 mil adeptos…
            Observei o treino e, no fim, aguardei na sala de imprensa. Nesse entretém, falei com os diversos jornalistas presentes, estabeleci contactos – todos foram prestáveis e prontificaram-se a ajudar no que fosse preciso – recolhi depoimentos sobre o que achavam do jogador português e, por último, assisti à conferência de imprensa, quase toda ela em catalão. Deu para perceber algumas coisas, mas…


            Até que me surgiu um rosto bastante conhecido: José Maria Bakero, um dos grandes jogadores que tinham passado pelo clube e que agora exercia funções de dirigente. Não perdi a ocasião de o puxar para o lado e o entrevistar. Estava satisfeito até então, para primeiro dia não tinha sido mau, mas decidi ficar o resto do dia pelas imediações do estádio – e fiquei extremamente impressionado pelas infraestruturas do clube. Ao lado, havia o mini-estadi, uma réplica de "Camp Nou" em pequeno, que também servia para treinos e para os jogos da equipa B, um pouco mais à frente o Palau Blau Grana, o pavilhão para as restantes modalidades desportivas e, com tudo ligado por pontes pedonais, ainda havia o edifício-sede. Um verdadeiro mundo, que atestava a grandeza do clube, e que pude comprovar com a visita ao museu do Barça, um dos mais visitados da cidade. E comecei imediatamente a engendrar que, além da reportagem com Luís Figo, também se podia fazer um trabalho paralelo em relação ao F.C. Barcelona.

Camp Nou, Mini-Estadi e Palau Blau Grana



À noite alarguei a minha área de passeio. Desci (e subi várias vezes) as ramblas, fui ver o mar passando pelo Passeio de Colombo e abanquei numa esplanada, apesar do frio, a beber um café e a observar o que me rodeava. Barcelona, definitivamente, tinha-me caído no goto.

            Na manhã seguinte fui buscar o Nuno ao aeroporto, almoçámos e fomos para mais um treino que, nesse dia, era à tarde. O aprontamento era num relvado secundário, o que permitia mais proximidade aos jogadores. E vimos ali, a poucos metros de distância, todos os craques que, nessa altura, em 1995, compunham o plantel da equipa, além do treinador Johan Cruyff. Um deles, Figo, acenou-nos quando nos viu e, por gestos, combinámos falar no final do treino.
            O encontro foi feito de sorrisos e cumprimentos, pois já nos conhecíamos dos tempos do Sporting C.P. e, logo ali, ficou acertado o jantar. Entrámos no seu Mercedes – curiosamente com matrícula de Madrid – e entrámos num dos seus restaurantes preferidos, onde era cliente habitual, sendo cumprimentado efusivamente por todos os empregados. Um deles fez-lhe um pedido: “Já tenho as camisolas dos clubes onde jogaste, mas não tenho a da selecção de Portugal…”. Figo alertou-o: “No es muy guapa…”. O empregado disse que não se importava e encaminhou-nos para a mesa num sítio mais reservado. O jantar foi bastante agradável, regado a champanhe, trocámos memórias e saciámos novidades e, sobretudo, explicámos o que pretendíamos fazer nos dias seguintes.
            Na manhã seguinte, eu e o Nuno fomos dar um passeio por Barcelona. Fomos à "Sagrada Família", que me impressionou imenso pela envergadura, pela altura e pela decoração, repleta de guindastes para concluir a obra que a morte prematura de Gaudí não permitiu – sentindo-me completamente frustrado por não a conseguir fotografar por inteiro. E ainda fomos a Barceloneta, almoçámos no Porto Olímpico, subimos a Montjuic e visitámos o estádio olímpico, onde na altura jogava o outro clube da cidade, o Espanyol.





As duas semanas deram para acompanhar o jogador português, para passear por Barcelona, para assistir aos treinos e para assistir a mais um jogo, frente ao Sporting Gijón. E foi nessa noite que vi o "Camp Nou" quase repleto, foi nessa noite que ouvi pela primeira vez o hino do Barça e foi ainda nessa noite que escutei as músicas entoadas pelos hinchas dedicadas a Figo. O português tinha Barcelona a seus pés e eu, quando parti, senti que a cidade também me tinha ficado no coração. Admito que, então, fiquei com um fraquinho pelo FC Barcelona, rapidamente desfeito quando, anos depois, Cristiano Ronaldo se mudou de armas e bagagens para o Real ;Madrid. Hoje, não gosto do F.C. Barcelona, mas continuo a gostar, e muito, de Barcelona.

16 abril 2015

Avalanche de golos no Liechtenstein

Tenho de admitir que as minhas primeiras viagens além-fronteiras foram, digamos assim, atrás de uma bola de futebol.
Na sequência de quem dava os primeiros passos na carreira, depois do jornal “Sporting”, fui aliciado por um convite de um jornal à escala nacional, a já extinta “Gazeta dos Desportos”. Era um ritmo diferente ao que estava habituado, implicando estar diariamente na redacção, sobretudo durante as tardes, e só sair alta noite quando o jornal já tinha a edição fechada. Mas gostei da experiência, daquilo de trabalhar numa redacção com diversos jornalistas e sentir o stress de escrever as notícias a tempo e horas. Quem me acompanhou nessa transição foi o antigo chefe de redacção do “Sporting”, o saudoso Galvão Correia, então investido na função de director, o fotógrafo Nuno Correia, mais como colaborador esporádico, e Gonçalo Pereira, do qual nunca me desliguei até hoje desde os tempos do semanário “leonino”.
Estava há pouco tempo na “Gazeta” quando me é entregue o primeiro trabalho de vulto: acompanhar a selecção nacional ao Liechtenstein, onde iria disputar um jogo da fase de apuramento para o Campeonato da Europa de 1996, que iria ter lugar em Inglaterra.

A ideia de acompanhar a selecção e logo para um país que sempre me suscitou curiosidade, deixou-me extremamente entusiasmado. Só que o jornal apenas conseguiu os vouchers para o dia seguinte em relação à partida da equipa e dos repórteres dos outros jornais.
“Não te preocupes: chegas ao aeroporto de Zurique, terás lá alguém à tua espera que te levará até ao hotel. E boa viagem!” Saí do aeroporto da Portela confiante e a viagem até Zurique correu lindamente, apenas com um senão: depois de ter desembarcado, não tinha ninguém à minha espera. Deixei passar meia hora, uma hora, hora e meia… e percebi que teria de me desenrascar por minha conta e risco. Ainda no aeroporto, perguntei a um funcionário o que teria de fazer para ir para o Liechtenstein e, diligentemente, este informou-me que bastaria descer as escadas rolantes para o piso inferior, para a gare dos comboios, dirigir-me a um guichet e comprar o bilhete. Quando lá cheguei, pedi um bilhete para Triesenberg, o local onde estavam hospedados os restantes jornalistas. A funcionária foi extremamente prestável:
 ̶  Não tem nada que saber! Vai apanhar o comboio na linha 2, que parte daqui a 7 minutos e, três quartos de hora depois, há-de chegar à fronteira, onde desembarca. Resta apanhar a camioneta do lado de lá da linha do comboio, que parte 10 minutos depois e chegará a Triesenberg em mais 8 minutos.


 Lago de Zurique

E, espantosamente, assim foi. Exactamente assim. Compreendi, então, o porquê da precisão dos relógios suíços. Entrei no comboio, vi desfilar pela janela o lago de Zurique, as pastagens verdejantes e alguns cumes alpinos. Cheguei à fronteira, apanhei a camioneta e foi nela que atravessei a ponte sobre o rio Reno que separa os dois estados. A primeira paragem foi em Vaduz, a pequena capital que consiste numas quantas ruas mas que, para espanto meu, até tem semáforos num cruzamento – “o” semáforo! Depois, foi seguir montanha acima até Triesenberg.
Entrei no pequeno mas acolhedor hotel – cuja proprietária era uma esquiadora detentora de uma medalha do bronze nuns Jogos Olímpicos de Inverno – e aprestei-me para fazer o check-in. Cumpridas as formalidades, dirigi-me em inglês ao funcionário para saber determinados pormenores, quando este me responde em português. Franzi o sobrolho, mas logo fiquei com um sorriso estampado no rosto quando li o seu nome gravado num crachá que tinha ao peito: José Silva. Mesmo assim, ainda fiquei surpreendido quando o senhor José Silva falou com outros funcionários em português e estes responderam na língua de Camões. À excepção da dona, todos ali eram portugueses!


O hotel Oberland, em Triesenberg

Fui pousar as malas ao quarto e saí para a rua. Dali, da entrada do hotel, os meus olhos açambarcavam o panorama em redor. Tudo era verde e florido, tudo estava arranjado, tudo estava imaculadamente limpo. O Liechtenstein é assim – um país em miniatura que ocupa a vertente de uma montanha, mas que é um mimo. Começa lá em baixo, em Vaduz, e acaba no topo. Do lado de lá do cume, já é Áustria.

Apesar de apenas ter permanecido três escassos dias, o que não faltaram foram peripécias. Na véspera do dia do jogo, eu e um grupo de colegas fomos almoçar a um restaurante em Vaduz e nenhum de nós conseguiu conter a admiração pelos carros que estavam no parque de estacionamento: lado a lado, conviviam Ferraris, Lamborghinis, Porsches, Maseratis, Jaguares. Grandes bólides, o que nos levou a inquirir para quê esta necessidade num país tão pequenino e com limites de velocidade apertadíssimos. Será que passavam a vida a subir e a descer a montanha?


Triesenberg

            Nesse mesmo dia, eu e o José Lorvão, fotógrafo do "Record", decidimos prolongar a estadia em Vaduz, que, diga-se, não tem muito para ver. E ao fim da tarde, quase já noite, passámos pelo hotel onde estava instalada a selecção. Umas conversas soltas com os jogadores e, como a fome começou a apertar, perguntámos ao balcão se havia alguma coisa que se pudesse comer. A resposta veio em português̶:
̶ Pode-se arranjar uma sandochas, com queijo e fiambre - disse-nos o prestável funcionário João Gomes. No fim do repasto, perguntámos ao “senhor João” quais os horários das camionetas que iam para cima, para Triesenberg. Cofiou o bigode pensativamente e disse que a última passava por ali dentro de 20 minutos. Óptimo, estamos bem a tempo.
Fomos para a paragem e ficámos à espera. Cinco minutos… Dez minutos… Meia hora… e nada de camioneta. Uma hora depois desistimos e decidimos encetar a caminhada a pé montanha acima, pela estrada. De vez em quando animava-se a alma quando se ouvia o som de um motor e as luzes de faróis, mas rapidamente se desfaziam as ilusões quando percebíamos que os carros não paravam. O frio devia ser grande, mas não o sentíamos – deitávamos os bofes de fora perante tamanha empreitada. Já não nos dávamos ao trabalho de esticar os polegares a pedir boleia quando, inesperadamente, um carro parou  uns metros à frente. Corremos para lá e foi com alegria que ouvimos o condutor:
̶  Triesenberg? Hop in.
Entrámos os três e não escondíamos o riso pela peripécia. De súbito, o nosso “salvador” vira-se para trás e pergunta-nos:
 ̶  São portugueses?   ̶  assim mesmo, em português! Ele também, como foi fácil de adivinhar, apenas mais um dos milhares que ali labutam. Despedimo-nos, à porta do hotel, com desejos mútuos de vitória para o jogo do dia seguinte.
            No dia do jogo, o principado estava em festa. Acorreram milhares de visitantes, emigrantes portugueses da ali, mas também muitos outros vindos da vizinha Suíça e do Luxemburgo, ao ponto de o estádio de Vaduz ter sido reforçado com uma bancada suplementar. Instalado na improvisada bancada de imprensa, foi com regozijo que vi milhares de bandeiras verdes e rubras serem agitadas, dezenas de faixas com incentivos a Portugal e a alegria daquela gente por, durante 90 minutos, se sentirem mais perto da pátria. É um sentimento que me assalta sempre que estou fora e mais sinto o apelo de uma certa portugalidade. E ali, em que ¾ do estádio eram ocupados por apoiantes portugueses, também eu me senti contagiado por esta onda. Quanto ao jogo em si, pouco há que acrescentar: uma esmagadora vitória por 0-7 – uma autêntica avalanche de golos nos Alpes.
            Findo o jogo, havia que rumar o mais rapidamente possível para o hotel – as redacções estavam à espera dos relatos dos enviados-especiais. Peguei no portátil e, antes de começar a escrever, olhei à minha volta: todos os meus colegas estavam nos respectivos quartos, mas de portas abertas, que permitia descortinar a azáfama colectiva – e sorri de satisfação.
Uma vez despachado o serviço, a fome apertou e de que maneira, pois nenhum de nós, à excepção de Gabriel Alves, da RTP, havíamos jantado. Simpaticamente, alguém do hotel conseguiu providenciar-nos umas quantas sandes de presunto, que nos pareceram um manjar dos deuses, seguidas de um delicioso gelado caseiro de frutos silvestres. Estávamos neste entretém quando, de súbito, somos alertados pelo som de foguetes, e corremos para a varanda. A vista era extraordinária: um fantástico fogo-de-artifício cobria os céus do Liechtenstein.
Ficámos ali extasiados a olhar, quando se abeirou a proprietária do hotel:
̶ Hoje é feriado nacional, é o Dia do Príncipe. Há fogo-de-artifício, o povo sai à rua e o castelo é aberto a todos os súbditos que o queiram visitar e cumprimentar. Ah, e todo o palácio está repleto de iguarias para os visitantes!
Foi esta a última visão que tive do Liechtenstein. Uma espécie de país dos contos de fada, com direito a príncipes, princesas e tudo. Além dos Lamborghinis e dos Maseratis, claro.