Tenho
de admitir que as minhas primeiras viagens além-fronteiras foram, digamos
assim, atrás de uma bola de futebol.
Na
sequência de quem dava os primeiros passos na carreira, depois do jornal
“Sporting”, fui aliciado por um convite de um jornal à escala nacional, a já
extinta “Gazeta dos Desportos”. Era um ritmo diferente ao que estava habituado,
implicando estar diariamente na redacção, sobretudo durante as tardes, e só
sair alta noite quando o jornal já tinha a edição fechada. Mas gostei da
experiência, daquilo de trabalhar numa redacção com diversos jornalistas e
sentir o stress de escrever as notícias a tempo e horas. Quem me acompanhou
nessa transição foi o antigo chefe de redacção do “Sporting”, o saudoso Galvão
Correia, então investido na função de director, o fotógrafo Nuno Correia, mais
como colaborador esporádico, e Gonçalo Pereira, do qual nunca me desliguei até
hoje desde os tempos do semanário “leonino”.
Estava
há pouco tempo na “Gazeta” quando me é entregue o primeiro trabalho de vulto:
acompanhar a selecção nacional ao Liechtenstein, onde iria disputar um jogo da
fase de apuramento para o Campeonato da Europa de 1996, que teria lugar em
Inglaterra.
A
ideia de acompanhar a selecção e logo para um país que sempre me suscitou
curiosidade, deixou-me extremamente entusiasmado. Só que o jornal apenas
conseguiu os vouchers para o dia
seguinte em relação à partida da equipa e dos repórteres dos outros jornais.
“Não
te preocupes: chegas ao aeroporto de Zurique, terás lá alguém à tua espera que
te levará até ao hotel. E boa viagem!” Saí do aeroporto da Portela confiante e
a viagem até Zurique correu lindamente, apenas com um senão: depois de ter
desembarcado, não tinha ninguém à minha espera. Deixei passar meia hora, uma
hora, hora e meia… e percebi que teria de me desenrascar por minha conta e
risco. Ainda no aeroporto, perguntei a um funcionário o que teria de fazer para
ir para o Liechtenstein e, diligentemente, este informou-me que bastaria descer
as escadas rolantes para o piso inferior, para a gare dos comboios, dirigir-me
a um guichet e comprar o bilhete.
Quando lá cheguei, pedi um bilhete para Triesenberg, o local onde estavam
hospedados os restantes jornalistas. A funcionária foi extremamente prestável:
̶ Não
tem nada que saber! Vai apanhar o comboio na linha 2, que parte daqui a 7
minutos e, três quartos de hora depois, há-de chegar à fronteira, onde
desembarca. Resta apanhar a camioneta do lado de lá da linha do comboio, que
parte 10 minutos depois e chegará a Triesenberg em mais 8 minutos.
Entrei
no pequeno mas acolhedor hotel – cuja proprietária era uma esquiadora detentora
de uma medalha do bronze nuns Jogos Olímpicos de Inverno – e aprestei-me para
fazer o check-in. Cumpridas as
formalidades, dirigi-me em inglês ao funcionário para saber determinados
pormenores, quando este me responde em português. Franzi o sobrolho, mas logo
fiquei com um sorriso estampado no rosto quando li o seu nome gravado num
crachá que tinha ao peito: José Silva. Mesmo assim, ainda fiquei surpreendido
quando o senhor José Silva falou com outros funcionários em português e estes
responderam na língua de Camões. À excepção da dona, todos ali eram
portugueses!
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O hotel Oberland, em Triesenberg |
Fui
pousar as malas ao quarto e saí para a rua. Dali, da entrada do hotel, os meus
olhos açambarcavam o panorama em redor. Tudo era verde e florido, tudo estava
arranjado, tudo estava imaculadamente limpo. O Liechtenstein é assim – um país
em miniatura que ocupa a vertente de uma montanha, mas que é um mimo. Começa lá
em baixo, em Vaduz, e acaba no topo. Do lado de lá do cume, já é Áustria.
Apesar
de apenas ter permanecido três escassos dias, o que não faltaram foram
peripécias. Na véspera do dia do jogo, eu e um grupo de colegas fomos almoçar a
um restaurante em Vaduz e nenhum de nós conseguiu conter a admiração pelos
carros que estavam no parque de estacionamento: lado a lado, conviviam
Ferraris, Lamborghinis, Porsches, Maseratis, Jaguares. Grandes bólides, o que
nos levou a inquirir para quê esta necessidade num país tão pequenino e com
limites de velocidade apertadíssimos. Será que passavam a vida a subir e a
descer a montanha?
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Triesenberg |
Nesse mesmo dia, decidimos prolongar
a estadia em Vaduz, que, diga-se, não tem muito para ver. E ao fim da tarde,
quase já noite, passámos pelo hotel onde estava instalada a selecção. Umas
conversas soltas com os jogadores e, como a fome começou a apertar, perguntámos
ao balcão se havia alguma coisa que se pudesse comer. A resposta veio em
português̶:
̶
Pode-se arranjar uma sandochas, com queijo e fiambre ̶ , disse-nos o prestável funcionário João
Gomes. No fim do repasto, perguntámos ao “senhor João” quais os horários das
camionetas que iam para cima, para Triesenberg. Cofiou o bigode pensativamente
e disse que a última passava por ali dentro de 20 minutos. Óptimo, estamos bem
a tempo.
Fomos
para a paragem e ficámos à espera. Cinco minutos… Dez minutos… Meia hora… e
nada de camioneta. Uma hora depois desistimos e decidimos encetar a caminhada a
pé montanha acima, pela estrada. De vez em quando animava-se a alma quando se
ouvia o som de um motor e as luzes de faróis, mas rapidamente se desfaziam as
ilusões quando percebíamos que os carros não paravam. O frio devia ser grande,
mas não o sentíamos – deitávamos os bofes de fora perante tamanha empreitada. Já
não nos dávamos ao trabalho de esticar os polegares a pedir boleia quando,
inesperadamente, um carro parou a uns metros à frente. Corremos para lá e foi
com alegria que ouvimos o condutor:
̶ Triesenberg? Hop in.
Entrámos
os três e não escondíamos o riso pela peripécia. De súbito, o nosso “salvador”
vira-se para trás e pergunta-nos:
̶ São
portugueses? ̶ assim
mesmo, em português! Ele também, como foi fácil de adivinhar, apenas mais um
dos milhares que ali labutam. Despedimo-nos, à porta do hotel, com desejos mútuos
de vitória para o jogo do dia seguinte.
No dia do jogo, o principado estava
em festa. Acorreram milhares de visitantes, emigrantes portugueses da ali, mas
também muitos outros vindos da vizinha Suíça e do Luxemburgo, ao ponto de o
estádio de Vaduz ter sido reforçado com uma bancada suplementar. Instalado na
improvisada bancada de imprensa, foi com regozijo que vi milhares de bandeiras verdes
e rubras serem agitadas, dezenas de faixas com incentivos a Portugal e a
alegria daquela gente por, durante 90 minutos, se sentirem mais perto da
pátria. É um sentimento que me assalta sempre que estou fora e mais sinto o
apelo de uma certa portugalidade. E ali, em que ¾ do estádio eram ocupados por
apoiantes portugueses, também eu me senti contagiado por esta onda. Quanto ao
jogo em si, pouco há que acrescentar: uma esmagadora vitória por 0-7 – uma
autêntica avalanche de golos nos Alpes.
Findo o jogo, havia que rumar o mais
rapidamente possível para o hotel – as redacções estavam à espera dos relatos
dos enviados-especiais. Peguei no portátil e, antes de começar a escrever,
olhei à minha volta: todos os meus colegas estavam nos respectivos quartos, mas
de portas abertas, que permitia descortinar a azáfama colectiva – e sorri de
satisfação.
Uma
vez despachado o serviço, a fome apertou e de que maneira, pois nenhum de nós,
à excepção de Gabriel Alves, da RTP, havíamos jantado. Simpaticamente, alguém do
hotel conseguiu providenciar-nos umas quantas sandes de presunto, que nos
pareceram um manjar dos deuses, seguidas de um delicioso gelado caseiro de
frutos silvestres. Estávamos neste entretém quando, de súbito, somos alertados
pelo som de foguetes, e corremos para a varanda. A vista era extraordinária: um
fantástico fogo-de-artifício cobria os céus do Liechtenstein.
Ficámos
ali extasiados a olhar, quando se abeirou a proprietária do hotel:
̶
Hoje é feriado nacional, é o Dia do Príncipe. Há fogo-de-artifício, o povo sai
à rua e o castelo é aberto a todos os súbditos que o queiram visitar e
cumprimentar. Ah, e todo o palácio está repleto de iguarias para os visitantes!
Foi
esta a última visão que tive do Liechtenstein. Uma espécie de país dos contos
de fada, com direito a príncipes, princesas e tudo. Além dos Lamborghinis e dos
Maseratis, claro.
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