Ainda
hoje me parece grotesco, mas a verdade, verdadinha, é que a minha primeira
viagem de avião foi em 1992. Após uma efémera passagem pelo “Semanário
Económico”, decidi-me pela veia desportiva ingressando no jornal “Sporting”, em
part-time a meias com o ensino e
onde, ao fim de alguns meses, fui destacado para acompanhar o estágio dos
comandados de Bobby Robson na Holanda.
A
viagem da Portela para Schiphol decorreu com tranquilidade, com a equipa e o staff técnico a ocuparem os lugares da
frente e os jornalistas cá atrás. Era no tempo em que ainda era permitido fumar
nas traseiras do avião e foi com alguma surpresa que assisti à vinda de alguns
jogadores até aos nossos lugares para confraternizar… e “cravar” um ou outro
cigarrito. Admito que, para mim, esta viagem foi bastante excitante e onde tudo
era novidade: o passaporte, o aeroporto, o free-shop,
a descolagem vendo as casinhas de Lisboa como peças de Lego, o voo acima das
nuvens, a descida assistindo aos férteis terrenos agrícolas lá em baixo como
geométricas peças de um puzzle, a aterragem impetuosa e a salva de palmas dos
jogadores – um ritual frequente nas viagens de avião.
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À porta do hotel em Doorwert: Peixe, Nelson, Pacheco, Juskowiak e Poejo. |
Cá
fora, uma vez recolhida a bagagem, respirei finalmente o ar “estrangeiro”. Mais
frio e humidade que em Lisboa, uma chuva miudinha e dei por mim a contemplar o
meu primeiro carimbo no passaporte
A
viagem de automóvel para Doorwerth – o local do estágio, perto de Arnhem – deu
para ter uma ideia geral do país: planuras sempre verdes, moinhos a pintalgarem
a paisagem e vaquinhas em barda. E deu ainda para constatar uma realidade: a
Holanda pode resumir-se a centenas de auto-estradas, pistas magníficas sem
portagem e que a cruzam de lés-a-lés mas que, para nós, tem um enorme óbice –
as placas de indicações, escritas naquele imperceptível neerlandês, mas onde
acabámos por descortinar um significado: Uit
(saída). Certo que a língua inglesa é falada pela esmagadora maioria da
população, desde jovens de tenra idade até a velhinhos octogenários, mas,
quando eles se expressam na língua local, esqueçam… Parece que todos falam com
um trapo enrolado na língua, numa cacofonia de expressões guturais em que o som
de um R está sempre presente. Os G, aliás, quando estão entre vogais, também
ganham o som R. E descobri, até, que Portugal se pronuncia… “Porturral”!
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Doorwerth |
Nesse
estágio, além dos dois treinos diários, eu e o fotógrafo Nuno Correia ainda
conseguimos dar umas saltadas às cidades vizinhas. Andámos por Arnhem,
Eindhoven, Maastricht e Sittard, entre outras, e rapidamente chegámos à
conclusão que as cidades holandesas são todas iguais: muitas vivendas com
vidraças de generosas dimensões de modo a captarem o máximo da exígua luz
solar, imensos espaços ajardinados, ruas imaculadamente limpas constantemente
bordejadas por pistas pedestres e para velocípedes e uma praça central sempre
com uma igreja luterana rodeada por cafés e esplanadas com mesas e cadeiras de
vime. São todas assim, à excepção de Roterdão e respectivo porto, e de
Amesterdão, a cidade sulcada por canais e que é realmente um caso à parte. Pela
arquitectura, pelo cosmopolitismo, pelos museus e pelos monumentos – mas também
pelas coffee-shops e pelo Red Light
District.
Foram
duas semanas pelos Países Baixos, com uma viagem de ida e volta de permeio a
Lisboa – para quem nunca tinha andado de avião, fiquei logo calejado com quatro
voos em quinze dias! –, assistindo a dezenas de treinos, jogos de carácter
particular, jantares entre jornalistas, conversas com jogadores e treinadores
no hotel onde estava a equipa e mil e uma peripécias. Robson mostrou-se um
conversador nato e que rapidamente granjeou simpatia entre os jornalistas e os
futebolistas, mas também se mostrou rigoroso e preciso em relação ao que
pretendia impor ao grupo de trabalho. E que grupo, diga-se: Figo, Peixe, Paulo
Torres, Nelson, Valkx, Capucho, Filipe, Balakov, Cadete, Juskowiak e Cherbakov,
entre outros. E ainda, um jovem promissor que dava os primeiros passos… como
treinador – José Mourinho.
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À saída para o treino: Manuel Fernandes, Valckx, Cherbakov e José Mourinho |
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